Tive a oportunidade de testemunhar o surgimento do debate e a implantação da política de cotas sociais e raciais. Durante muito tempo, contudo, não entendia bem como uma política aparentemente de separação social poderia trazer igualdade social. Isso porque, pra mim, éramos iguais perante a lei e todos deveriam ter as mesmas oportunidades e chances. Eu simplesmente não percebia o abismo que é a desigualdade social no Brasil. É evidente que sabia que existia desigualdade, mas não conseguia compreender estruturalmente e historicamente todas as implicaturas dessa desigualdade. Até que, aos poucos, e mais lendo e ouvindo do que falando e escrevendo, comecei a entender outras perspectivas. Por exemplo: comecei sistematicamente a "contabilizar" a estratificação social e racial dos lugares que frequentava. E ver que não há nenhum afrodescendente ou pessoa trans no restaurante, na faculdade, enfim, faz você perceber o que é a invisibilidade social.
Errei feio, errei rude. Não somos iguais e é impossível apagar a mácula histórica que o racismo, o patriarcado e a violência de gênero causaram em nossa sociedade. Por isso, políticas de inclusão e afirmação são uma pauta sempre necessária. E sempre é tempo de aprendermos e rever nossos conceitos. Hoje percebo que as cotas, na verdade, nem dão conta de efetivar a mudança social, até mesmo porque são necessárias gerações inteiras de mudança. Não é uma política recente que mudaria em poucos anos um passado longo, complexo e multifacetado. Mas que bom que há um começo de mudança que gera, hoje, inúmeros avanços em termos de afirmação social. Que possamos testemunhar e ser a transformação social que o mundo tanto necessita.
