sábado, 18 de agosto de 2012

A arte de escrever dicionários

Dicionários são o momento eterno de um etéreo vocábulo; por isso, a impossibilidade de ser um dicionarista: em um dia, o amor impossível vira realidade palpável e, noutro, vira inconstância e, noutro, desilusão e, noutro, vira arrependimento e, noutro, vira memória, e noutro vira esquecimento...

Mas, assim como os fatos, os conceitos também possuem suas ciladas próprias: todo o amor impossível é uma circunstância, toda felicidade, uma perspectiva, todo sofrimento, uma impressão imprecisa.

Os amantes criam uma linguagem própria; os amores são escritos sob os grafemas de um outro idioma. Cada sentimento a cada minuto é merecedor de um neologismo; mas, inda os houvesse, não estaríamos livros do fado de traduzir o "eu" no "outro", que é o que sinto e o que escrevo a partir do que sinto. Sentir em sentido amplo, pois até mesmo a racionalidade passa por vieses sensoriais.

Por isso, dicionários são universais; sua arte exige um "algo que fica" dentro do "algo que se modifica". Assim somos: o futuro de um passado sem futuro.

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