quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Soneto de devoção


Em vão, leio, dos melhores poetas, os melhores sonetos,
E, das melhores orquestras, busco a melhor das sinfonias!
Em cada museu, procuro um quadro que seja o perfeito;
Garimpo a obra que seja a mais bela da cinematografia...

Pessoa, Baudelaire, Augusto dos Anjos ou Sartre...
Gauguin, Wagner, Munch, Beethoven ou Nietzsche...
Nem mesmo o mais idílico poema da história da arte!
Ou da filosofia o mais sublime autor que existe!

Nada nem nenhum seria uma hipérbole para tua beleza:
Pois tudo e todos são um eufemismo parco, pouco
Perante as tuas cintilantes e ambíguas proezas!

E eu, que me inspiro nesse lirismo de sufoco,
Me perco no abismo flutuante das tuas sutilezas!
Devoto a ti toda a minha alma... Todo o meu corpo!

Trois coleurs: la liberté n'est pas bleu!






Nas costas, o seco peso do mundo
sob um sussurro leve
a vida, que é breve,
é a superfície de um mar profundo

A respiração suspirosa é sufocante
Consoante à imaginação libidinosa
Esvaecida no mudo grito delirante
D'uma desesperança esperançosa

Olhos fechados para o mundo que se abre!
Peito aberto para a vida que se fecha!
Nossos passos são um velho entrave

Entre o arqueiro e a sua flecha
A partitura e uma desbotada clave
E a paixão indômita que (nos) desperta


terça-feira, 21 de agosto de 2012

Bucolismo primaveral



Estávamos sentados e sozinhos, Carlos e Eu
O céu nublado e a orla marítima vazia
Mas estávamos lá, tanto Carlos quanto Eu
E a tarde fresca de primavera se ia..

Mas permanecemos sozinhos e sentados
A boca seca, ávida, procurava algum licor
Permanecemos juntos, atônitos e calados
Recebidos pelo céu sem nenhum calor

Foi quando, de repente, o milagre aconteceu
E resolvemos, prostrados, ir embora
Sem saber o que ou quem o sucedeu

Carlos e eu mal compreendemos a história
Assim como o fiz, um poema ele escreveu:
A tentação dizia ao tentado: boas melhoras!

sábado, 18 de agosto de 2012

Ma petite Amélie


Sob uma chuva calma de primavera, chegou a pequena Amélie Poulain; distraída, pensou ser um dia de sol. Caminhava sem flutuar no ar frio das tardes parisienses, embora houvesse falado sobre levezas e leviandades. O peso da existência, no entanto, era um eterno retorno de desbotadas canções: sempre inconstante, sempre vir a ser... Memória? Percepção sensorial projetada. Assim, futuro e passado, na verdade, são imaginações baseadas nos desejos, nas angústias, nas vontades...

A gravidade é uma lei pouco compreendida; o fato de estarmos presos ao chão é um mero detalhe visual, utilizado como sofisticada metáfora. Nossa existência é terrena: por isso, o fascínio pelas alturas e pelos oceanos... Quando voamos alto ou mergulhamos fundo, podemos burlar a lei que sempre nos acompanha: assim, nos esquecemos de nossa existência e a desafiamos. Por um eterno minuto.

Amélie chegou ao café; sentou-se e observou o mundo. Percebeu que não havia mais laranjas na máquina de fazer suco e que uma borboleta, desavisada, insistia intermitentemente em invadir o café através do vidro... Foram as epopeias matinais. Pediu um pedaço de torta de amora e um café com licor de romã; esqueceu-os assim que abriu a primeira página de um famigerado romance da literatura tcheca. Mas não por ter encontrado Thomas e Tereza: havia uma foto antiga e, nela, se encontravam três pessoas. Jamais soube quem eram - quem tinham sido. Mas observou. Detalhadamente; por horas, imaginou cada história entrecruzada que levou à velha fotografia. Quais são os acordes dissonantes na nossa unívoca partitura?

Amélie, ao sair do café, esqueceu-se do livro na mesa onde havia sentado; lá repousava a sinfonia literalizada: Muß es sein? Es Muß sein!

A arte de escrever dicionários

Dicionários são o momento eterno de um etéreo vocábulo; por isso, a impossibilidade de ser um dicionarista: em um dia, o amor impossível vira realidade palpável e, noutro, vira inconstância e, noutro, desilusão e, noutro, vira arrependimento e, noutro, vira memória, e noutro vira esquecimento...

Mas, assim como os fatos, os conceitos também possuem suas ciladas próprias: todo o amor impossível é uma circunstância, toda felicidade, uma perspectiva, todo sofrimento, uma impressão imprecisa.

Os amantes criam uma linguagem própria; os amores são escritos sob os grafemas de um outro idioma. Cada sentimento a cada minuto é merecedor de um neologismo; mas, inda os houvesse, não estaríamos livros do fado de traduzir o "eu" no "outro", que é o que sinto e o que escrevo a partir do que sinto. Sentir em sentido amplo, pois até mesmo a racionalidade passa por vieses sensoriais.

Por isso, dicionários são universais; sua arte exige um "algo que fica" dentro do "algo que se modifica". Assim somos: o futuro de um passado sem futuro.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Desventuras

Conhecer o caminho é caminhar pelo desconhecido
Entrar numa partitura de uma ópera irrepetível
Flutuar pelos bosques secretos do inatingível
Se entregar sem trégua às medidas do desmedido

Ser senhor de si mesmo, noção absurda
Quando se percebe uma tessitura branda
- tácita sob o testemunho de quem canta -
que só se ouve sob uma frequência surda

O "eu" perdeu sua racionalidade
[ Hoje, já memória esvaecida ]
e reviveu toda sua insanidade

Como nunca antes ensandecida!
E a poesia é a vida que arde
Por agora começar a ser vivida!




As cores do mal

As Flores do Mal, de Baudelaire, é um livro sobre as cores: um brilho ofuscado, um vermelho volúpia, um cinza solidão, uma ansiedade púrpura, um horror insaturado!

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Tudo o que realmente deve ser dito se expressa pela espontaneidade corpórea.

domingo, 12 de agosto de 2012

Canção Muda de Sol e Lua


As janelas foram abertas à primavera
e soprou sua brisa e seu frescor
frente a já frígida quimera
e ao velho adormecido amor

O horror de viver angustiado
pela própria angústia existencial
tornou-se aventura primaveral
nas folhas do bosque encantado

Assim, bosque e primavera
- tão distantes um do outro -
têm nova vida, numa nova era

E se descobrem aos poucos
Como se o destino quisera
que se amassem feito loucos.