quinta-feira, 29 de novembro de 2012


Benvelaire



Ressoam escandalosos inéditos manuscritos
Liricamente perdidos em meus argumentos
- Laboriosos textos sobre o não dito -
Nos lábios aflitos do pensamento


Eternizados estão os teus versos malditos! 
Com a luz incandescente d'alguns ensinamentos...
Que, desatinados ecoam nos tímpanos do esquecimento
E luarizam-se sob a tênue luz do infinito!


Perdoem-me os olhos cegos sob tua luz,
Oh áurea corpórea desses escritos!
Pois redimidos estamos se a vida nos conduz...

Ainda mais pois seduzidos por um etéreo mito
 Ou pela efígie eterna de um cão andaluz:
a linguagem é um inevitável precipício

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Les signes


Ethan a demandé discretement si Julie aimait René Descartes. Julie a répondu qu’elle aimait la phrase, et non l’auteur. Julie a dit qui si “n’aimer pas” signifie simplement être indifférent, sans l’amour ou l’haine, donc, oui, mais si “n’aimer pas” signifie detéster, donc, non. Ethan a eté surpris par une réponse très complexe à une question qui exige une réponse simple, “oui” ou “non” par example. Ethan a demandé un café. Julie lui a servi. Ethan a dit que son français n’est pas parfait, mais Il aimes les rues de Paris. Julie lui a dit qu’elle aimait lês poissons.Ethan était d’accord. Ethan a déclaré qui l'océan était sa passion. Julie lui a dit qu’elle préfére la stabilité d'un aquarium.
Les deux personnages ont compri, à ce point du cette histôire, qui avaient une connexion attractive et irréparable entre les passions et les problèmes de leurs vies. Julie était quelqu'un qui avait besoin d'un monde derrière un bureau: solide, où elle voit tout, où elle attend les demande et où elle rêve les rêves et las realités.Ethan jamais a habite pas au même place. Sa vie etait un éternel aller pasque il ne sais pas “séjourner”. Ethan savait qu’il voyageait parce qu’il n’a eu pas une destination. Julie tenaitl’eaux, lês poissons et lês rêves. Ethan jamais les possédé.

Ethan a payé le café et a dit “au revoir”.

domingo, 9 de setembro de 2012

Terminologia

Madonna - Munch

Quem te deu os lindos lábios?
Quem te fez dessa cor?
Não foi apenas um pintor...
Senão o maior de todos os sábios!

As curvas, os risos, os jeitos?
Quem te conferiu o estatuto de obra de arte?
Cada traço e cada detalhe feitos...
São minha partitura e meu estandarte!

Mas quem haveria de fazê-la tão linda?
Se, cético, meus olhos são ateus...
E, por ti, são mais céticos ainda!

Penso ser engano dos olhos meus...
Embora reconheça que essa bela menina
Só possa ter sido a mais divina obra de deus!

Metafísica

Fractais


Seduzido pelos rituais e pelos ritos;
Reduzido à lama e à poeira
aos escritos da metafísica primeira
Aos gregos e sacros mitos!

O universo cósmico desfez-se líquido;
Na enfermidade passageira
e na efemeridade floreira
Solidificou-se feito bloco monolítico!

Castigado pelos atrozes dissabores
Aprendiz metassemântico
Louvo-te com meus mais belo canto

Cântico sacroprofano dos louvores
Lavrado no lábio consonântico
Do meu amor e do meu espanto!


sábado, 8 de setembro de 2012

Fractais¹



Quis o amor fati nos condenar à liberdade;
Mas, assim como Sartre, nascemos livres!
Essas são as premissas tolas que dizes
Quando te abandona a racionalidade...

A dúvida, contudo, é um labirinto semântico:
 - entre dúbias escolhas e respostas
em cada cartada e a cada aposta -
Nos mostra um universo metafísico e quântico!

Nós, sonhadores sem defesa,
Alegamos com frieza e com ternura
Que a dúvida é o preço da pureza!

Mas nossa resposta, ainda que pura,
Balança duvidosa sobre uma leve sutileza:
Amar é se encantar e se perder na loucura




¹Para ser lido ao som de Infinita Highway, dos EngHaw

Especulações sobre o ser e a palavra "ser"



Vértices verticais e violentos
São a vertigem de um sonho não sonhado
Ou vestígios de um despertar sonolento
Desesperançoso de sonhar acordado

Vagas volúpias viris
São as lembranças de um passado não vivido!
São as sobras de um futuro proibido!
Delirantes almas febris

Vinganças e verdades vazias
Esferas planas do submundo
São os versos rasos que se escrevia

Hoje suplico, límpido e rarefeito ar imundo,
que me sopra um fôlego da vida,
Me sufoca no teu olhar profundo!




quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Linguagens¹



Ela é a transcendência pura
subvertida numa linguagem própria
com sintaxe e regras morfológicas
com veneno que é a cura

Nuances semânticas irredutíveis
e uma pragmática obscura
o eterno e o efêmero irrepetíveis
ela é a lucidez e a loucura

Ela passa exuberante
Pisa leve e elevado
E já está tão distante...

E eu, que vejo seu brilho fascinante,
- e me flagro a olhar hipnotizado -
entrego-me ao pecado desse amor errante





¹Para ser lido ao som de Le Parapluie, de Yann Tiersen

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

In decisão


Ah se pudéssemos prever o acontecido...!
Quanta mágoa, quanta dor, quanta tristeza...
Teríamos simplesmente as esquecido?!
Viveríamos, tolos, de concisas certezas!

Mas a indecisão nos parece ser uma constante:
A permanência somente na mudança
- o eterno não mais que uma dança -
e o efêmero, estrada certa do caminho errante!

Eu, tímido, imagino uma nova vida
Sem temer o perigo
Sem temor de deixá-la perdida...

E os dias que virão hão de ser um abismo
para as doces almas atrevidas
e os amantes do desconhecido!



Sonata



Imanente permanência que se esvai;
Vais para onde para que não te veja?
Não macula o gosto doce da pureza,
Nem lança tua pira em meus canaviais.

Inconstância amada e intempestiva,
Feérica linhagem dos sonhadores!
Me segura em tuas mãos altivas!
Ou na candura ferina dos amores!

Eu, caído, eu sou só aqui e agora
Com a pressa de quem chega
Com a dor de quem vai embora

Mas eu, aqui caído, quero que vejas
que o nosso tempo transcende as horas
E a nossa verdade trai todas as certezas

Vertigem

Símbolos: são intocáveis. Advertiu-nos Milan Kundera. Tenho, nesses dias de luto e luta, refletido sobre as relações. As relações entre ideias, entre coisas, entre pessoas, entre olhares, entre as estações do ano. A primavera chega intempestivamente: somos condenados a vivê-la. Me parece impossível viver sem estabelecer relações. A linguagem é uma relação, o amor também o é; somos uma ininterrupta relação.

Mas a distância e o silêncio parecem cessar as relações; engano fácil. O silêncio e a distância fazem cada detalhe permanecer. Não nos lembramos da rotina atônita de cada dia; lembramos daquele minuto em que tudo mudou.


Por isso, Nietzsche nos ensinou a nos entregarmos à vida em todas as suas (in)consequências. Pule!

Sor Uilian

- E aí, sor! Como tá?

- Tô bem, mas me recuperando do tendão ainda... Tenho que usar muleta, cadeira de roda, às vezes sinto dor no pé... Mas tenho seguido adiante! E tu?

- Bem também... Quando volta a dar aula?

- Ainda não sei, depende da minha recuperação; já estão com saudade de mim?

- Simmmmm!

- Eu também... Além de gostar de dar aula, acho chato ficar o dia todo em casa, com o pé imobilizado.

- Mas o senhor se machucou???



Nesse momento, eu vi que a comunicação é uma coisa muito, mas muito mais variável do que imaginamos.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Soneto de devoção


Em vão, leio, dos melhores poetas, os melhores sonetos,
E, das melhores orquestras, busco a melhor das sinfonias!
Em cada museu, procuro um quadro que seja o perfeito;
Garimpo a obra que seja a mais bela da cinematografia...

Pessoa, Baudelaire, Augusto dos Anjos ou Sartre...
Gauguin, Wagner, Munch, Beethoven ou Nietzsche...
Nem mesmo o mais idílico poema da história da arte!
Ou da filosofia o mais sublime autor que existe!

Nada nem nenhum seria uma hipérbole para tua beleza:
Pois tudo e todos são um eufemismo parco, pouco
Perante as tuas cintilantes e ambíguas proezas!

E eu, que me inspiro nesse lirismo de sufoco,
Me perco no abismo flutuante das tuas sutilezas!
Devoto a ti toda a minha alma... Todo o meu corpo!

Trois coleurs: la liberté n'est pas bleu!






Nas costas, o seco peso do mundo
sob um sussurro leve
a vida, que é breve,
é a superfície de um mar profundo

A respiração suspirosa é sufocante
Consoante à imaginação libidinosa
Esvaecida no mudo grito delirante
D'uma desesperança esperançosa

Olhos fechados para o mundo que se abre!
Peito aberto para a vida que se fecha!
Nossos passos são um velho entrave

Entre o arqueiro e a sua flecha
A partitura e uma desbotada clave
E a paixão indômita que (nos) desperta


terça-feira, 21 de agosto de 2012

Bucolismo primaveral



Estávamos sentados e sozinhos, Carlos e Eu
O céu nublado e a orla marítima vazia
Mas estávamos lá, tanto Carlos quanto Eu
E a tarde fresca de primavera se ia..

Mas permanecemos sozinhos e sentados
A boca seca, ávida, procurava algum licor
Permanecemos juntos, atônitos e calados
Recebidos pelo céu sem nenhum calor

Foi quando, de repente, o milagre aconteceu
E resolvemos, prostrados, ir embora
Sem saber o que ou quem o sucedeu

Carlos e eu mal compreendemos a história
Assim como o fiz, um poema ele escreveu:
A tentação dizia ao tentado: boas melhoras!

sábado, 18 de agosto de 2012

Ma petite Amélie


Sob uma chuva calma de primavera, chegou a pequena Amélie Poulain; distraída, pensou ser um dia de sol. Caminhava sem flutuar no ar frio das tardes parisienses, embora houvesse falado sobre levezas e leviandades. O peso da existência, no entanto, era um eterno retorno de desbotadas canções: sempre inconstante, sempre vir a ser... Memória? Percepção sensorial projetada. Assim, futuro e passado, na verdade, são imaginações baseadas nos desejos, nas angústias, nas vontades...

A gravidade é uma lei pouco compreendida; o fato de estarmos presos ao chão é um mero detalhe visual, utilizado como sofisticada metáfora. Nossa existência é terrena: por isso, o fascínio pelas alturas e pelos oceanos... Quando voamos alto ou mergulhamos fundo, podemos burlar a lei que sempre nos acompanha: assim, nos esquecemos de nossa existência e a desafiamos. Por um eterno minuto.

Amélie chegou ao café; sentou-se e observou o mundo. Percebeu que não havia mais laranjas na máquina de fazer suco e que uma borboleta, desavisada, insistia intermitentemente em invadir o café através do vidro... Foram as epopeias matinais. Pediu um pedaço de torta de amora e um café com licor de romã; esqueceu-os assim que abriu a primeira página de um famigerado romance da literatura tcheca. Mas não por ter encontrado Thomas e Tereza: havia uma foto antiga e, nela, se encontravam três pessoas. Jamais soube quem eram - quem tinham sido. Mas observou. Detalhadamente; por horas, imaginou cada história entrecruzada que levou à velha fotografia. Quais são os acordes dissonantes na nossa unívoca partitura?

Amélie, ao sair do café, esqueceu-se do livro na mesa onde havia sentado; lá repousava a sinfonia literalizada: Muß es sein? Es Muß sein!

A arte de escrever dicionários

Dicionários são o momento eterno de um etéreo vocábulo; por isso, a impossibilidade de ser um dicionarista: em um dia, o amor impossível vira realidade palpável e, noutro, vira inconstância e, noutro, desilusão e, noutro, vira arrependimento e, noutro, vira memória, e noutro vira esquecimento...

Mas, assim como os fatos, os conceitos também possuem suas ciladas próprias: todo o amor impossível é uma circunstância, toda felicidade, uma perspectiva, todo sofrimento, uma impressão imprecisa.

Os amantes criam uma linguagem própria; os amores são escritos sob os grafemas de um outro idioma. Cada sentimento a cada minuto é merecedor de um neologismo; mas, inda os houvesse, não estaríamos livros do fado de traduzir o "eu" no "outro", que é o que sinto e o que escrevo a partir do que sinto. Sentir em sentido amplo, pois até mesmo a racionalidade passa por vieses sensoriais.

Por isso, dicionários são universais; sua arte exige um "algo que fica" dentro do "algo que se modifica". Assim somos: o futuro de um passado sem futuro.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Desventuras

Conhecer o caminho é caminhar pelo desconhecido
Entrar numa partitura de uma ópera irrepetível
Flutuar pelos bosques secretos do inatingível
Se entregar sem trégua às medidas do desmedido

Ser senhor de si mesmo, noção absurda
Quando se percebe uma tessitura branda
- tácita sob o testemunho de quem canta -
que só se ouve sob uma frequência surda

O "eu" perdeu sua racionalidade
[ Hoje, já memória esvaecida ]
e reviveu toda sua insanidade

Como nunca antes ensandecida!
E a poesia é a vida que arde
Por agora começar a ser vivida!




As cores do mal

As Flores do Mal, de Baudelaire, é um livro sobre as cores: um brilho ofuscado, um vermelho volúpia, um cinza solidão, uma ansiedade púrpura, um horror insaturado!

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Tudo o que realmente deve ser dito se expressa pela espontaneidade corpórea.

domingo, 12 de agosto de 2012

Canção Muda de Sol e Lua


As janelas foram abertas à primavera
e soprou sua brisa e seu frescor
frente a já frígida quimera
e ao velho adormecido amor

O horror de viver angustiado
pela própria angústia existencial
tornou-se aventura primaveral
nas folhas do bosque encantado

Assim, bosque e primavera
- tão distantes um do outro -
têm nova vida, numa nova era

E se descobrem aos poucos
Como se o destino quisera
que se amassem feito loucos.