quarta-feira, 23 de junho de 2010

Os sonhadores

Na primeira vez que eu estive em Paris, eu pensei: somente os franceses, somente os franceses colocariam um cinema dentro de um palácio. Esta é a frase inicial do filme “Os Sonhadores”, e o personagem Matthew, interpretado por Michael Pitt, ao dizê-la revela-nos uma obra que ilustra e homenageia a produção cinematográfica, sobretudo filmes clássicos como Bande à Part e Luzes da Cidade e grandes atores, entre eles Chaplin, Keaton e Dietrich.

O diretor Bernardo Bertolucci apresenta ao expectador a história de Matthew, jovem americano que vai à França para estudar a língua local, e de dois irmãos peculiares: Isabelle e Theo, vividos respectivamente pela estreante Eva Green e pelo talentoso galã francês Louis Garrel. O trio possui uma ligação bastante forte, qual seja, a paixão pelo cinema. Os três, diga-se de passagem, conheceram-se na Cinèmathèque Française, local de encontro entre os cinéfilos e também das primeiras manifestações revolucionárias da agitadíssima França dos anos 60.

Com o desenvolver da trama, o expectador assiste a uma intensa e crescente intimidade entre os personagens protagonistas, iniciada no convite de Isabelle e Theo para que Matthew jantasse em sua casa; nesta oportunidade, o jovem americano é convidado também para permanecer uma temporada na casa dos dois irmãos, visto que seus pais viajariam ao litoral.

Além de introduzido em uma cultura diferente e de não falar fluentemente a língua francesa, Matthew tem seus costumes e regras paulatinamente subvertido por seus novos amigos franceses; sem perceber, ele entra no jogo de provações e de desafios no qual ambos os irmãos vivem.

O filme de Bertolucci ilustra também o período revolucionário que desencadeia os fatos históricos de maio de 1968, aspecto trabalhado com coerência pelo diretor, que em nenhum momento trata com descaso a ficção ou a usa como pretexto para remontar a França da década de 60.

Bertolucci, pelo contrário, presenteia o expectador com uma intensa relação entre a trajetória particular de cada pessoa e o desenrolar histórico de toda uma sociedade; além disso, o diretor retrata a contra-cultura e os anos mais socialistas e rebeldes de nossa recente história, e tudo isso embalado ao som de ilustres nomes do Rock ‘n’ Roll, como Janis Joplin, Jimi Hendrix e Eric Clapton.

A resolução do filme acontece com uma belíssima câmera parada frente a um pelotão policial prestes a atacar a massa revolucionária enfurecida nas ruas; após a passagem da força policial, o expectador vê apenas uma rua vazia, que cria a sensação de que a história é fragmentada, subjetiva e parcial, mesmo que esteja sob um olhar objetivo e estático. Ao mesmo tempo, o trio, que já mostrava indícios de afastamento, separa-se totalmente em meio ao protesto: Matthew opta por evitar o confronto direto, ao passo que Theo é o primeiro homem da frente de ataque, munida de molotóvs e de sonhos. Isabelle, inicialmente indecisa, prende-se novamente a seus laços umbilicais ao preferir ser cúmplice de seu irmão.

Ao encerramento do filme, o expectador vê-se diante de um conflito entre a realidade e o sonho, a possibilidade e o fato. Esse dilema traduz-se na fala do personagem pai dos gêmeos Theo e Isabelle: “antes de transformar o mundo, você precisa saber que faz parte dele também”. Assim, Bertolucci encerra uma história com um convite para (re)escrevermos outra.

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