quarta-feira, 23 de junho de 2010

Antes do Amanhecer

Título Original: Before Sunrise

Tempo de duração: 105 minutos

Direção: Richard Linklater

Roteiro: Richard Linklater e Kim Krizan

Fotografia: Lee Daniel

Direção de arte: Florian Reichmann

Figurino: Florentina Welley
Edição: Sandra Adair

Elenco: Ethan Hawke , Julie Delpy , Andrea Eckert , Hanno Pöschl , Karl Bruckshwaiger

O diretor Richard Linklater, nascido em Houston, EUA, desconstrói nesta obra toda a caricatura dos romances norte-americanos: seus personagens são redondos, densos, intimistas e verossímeis; sua narrativa é circular, fluida, coerente e, sobretudo, poética. O filme aborda a existência e as relações humanas e, ao fazê-lo, expõe uma teia de fatores que desencadeiam o fluxo da vida: o acaso, a escolha, a impulsividade, a passionalidade e, creio, o mais importante: o compêndio de auto-contradições e de dúvidas que nós, os humanos, experenciamos.

Jesse (Ethan Hawke) e Celine (Julie Delpy) são os protagonistas desta efêmera e, ao mesmo tempo, marcante experiência (não apenas sexual, turística ou romântica, como também existencial). Ambos casualmente encontram-se em um trem com grandes janelas, de onde temos a ambigüidade fértil de sentirmo-nos observadores e observados. A partir disso, o filme tece uma história que poderia ser considerada uma (quase) fábula ou uma história quotidiana (e sem ser incoerente!), ao expor o lirismo das situações quotidianas e a beleza trágica – por vezes cômica – das fragilidades (não com alguma conotação ruim) e dos desejos humanos.

Na realidade, o roteiro aborda uma história que poderia ter acontecido - ou que poderá acontecer – com qualquer um de nós: sentir empatia por alguém desconhecido, aproximar-se dessa pessoa, sentir-se bem a seu lado e buscar nela os limites de nossa própria existência. Há de se admitir, contudo, que é necessário um trabalho criterioso para não resvalar para uma caricatura pueril nem tornar os personagens demasiado surreais para o espectador. O que, de fato, é feito com maestria: Jesse e Celine são personagens desenvolvidos gradualmente ao longo da narrativa e, também, dos cenários (Jessé, o viajante à procura de algo que não se sabe, por exemplo, estabelece uma forte relação entre seus sentimentos e as estações de trem (partida x chegada, movimento x permanência, observar x mostrar-se).

Outra característica vital para a o efeito universal que esta história tem é o fato de que ela não estabelece limites rígidos para a imaginação do espectador: Jesse é um rapaz norte-americano que perdeu a namorada e vaga por aí, ao passo que Julie é uma francesa em seu quotidiano que resolve correr o risco e se certificar de que aquele não era o homem de sua vida, este conforme o argumento (quase) irrefutável de Jessé. O espectador, dessa forma, pode criar uma empatia por qualquer dos personagens, pois há uma série de características com as quais pode se identificar: ser aventureiro, ter perdido alguém de que gostava, sentir-se confuso e procurar algo novo, tentar tornar a vida mais atraente, explorar lugares e possibilidades com uma boa companhia ao lado, et cetera.

Tal processo híbrido de lirismo poético e coisas do dia-a-dia, de fábula e de vida quotidiana, de uma história extremamente singular e tão irredutivelmente universal fazem de Antes do Amanhecer um filme que traz ao espectador a sensação de que conhece uma história igual àquela e de que jamais existiria uma história igual àquela. Igualdade esta que remonta o eterno retorno nietzscheano, e dessa intertextualidade podemos pensar que “tudo o que se faz por amor faz-se sempre para além do bem e do mal”.

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