quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Prosaico e prezado Dioniso,

escrevo-te para contar boas novas. Dizer que tua vida inda não foi vivida nem está morta: é o primeiro gole da garrafa recém aberta. Escrevo-te para pedir um pouco mais de plenitude e paz: poderíamos perturbar estas protuberâncias improváveis, este quotidiano afoito e afobado. Mas saberemos manter em nós aquele que somos, pois é isso o que, de fato, somos. Extemporâneos e intempestivos!

Os espíritos mais elevados devem fazer da inquietude a arma mais forte para manter a dignidade, a racionalidade e a elegância. É impossível não se deixar invadir por sentimentos ferozes que atormentam a mente e corroem a razão. Ficam dilacerados os vestígios e os fragmentos de lucidez. Mas o além-do-homem deve estar ereto e elevado. Sempre forte e jamais suplicante. Afinal, no final, somos apenas nós o interesse de nossa existência. A humanidade, amigos, a huminadade nada mais é que uma série de coincidências e circunstâncias.

E nós, nós sempre seremos e sempre estaremos, pois somos extemporâneos. Não pertencemos ao rebanho preso no tempo/espaço/contexto; jamais deixaremos uma amiga mão nos oferecer ajuda e jamais permitiremos que ombro algum possa ser consolo. Somos inconsoláveis e imperdoáveis. Somos atrozes inimigos da moral e dos bons modos!

E esperamos, pois a vida, para nós, nada mais é do que uma longa espera; cremos no sagrado tempo/espaço, que, enquanto leva todos à decadência, nos faz, vinho grand cru, maiores e superiores. Amadurecemos os frutos tardios de uma vida violada, de uma existência extinta. Somos estes, e não tememos quem somos, muito menos quem sois.

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