O desespero de esperar, já nos disse Humberto Gessinger, faz do paraíso noturno um verdadeiro inferno. A agonia da espera é algo que nos atormenta por nos limitar a nossa impotência e pouca importância: somos, simplesmente, obrigados a brindar uma espera que pode não cessar. Esperar algo, com certeza, é um sentimento que nos impede de sentir qualquer outra sensação, de tomar qualquer outra atitude... estamos presos ao nosso - fraco - autocontrole e a nossa agonia.
Quem espera, aos poucos, se toma pela dor, pela força, pela conformação da espera. Só nos resta esperar, já diz o adágio popular. Estamos todos cientes que, em momentos de espera, qualquer atitude tomada contra esse esperar é um ato forçoso e insensato que tende a nos atormentar ainda mais - até mesmo quando isso já não parece ser possível e, com toda a certeza que se pode ter, já não mais é verossímel.
Esperar é afirmar que não podemos algo; quando espero, é porque não posso resolver por mim mesmo, seja da maneira que for, na circunstância que for, o assunto que for, no tempo/espaço que eu estiver. Esperar é afirmar que nada mais podemos fazer e, assim, nossa existência nos limita a nós mesmos, o que nos leva à impotência, de forma ad infinitum; se não fosse assim, isto é, se fôssemos úteis ou capazes, não precisaríamos esperar. Poderíamos tomar uma iniciativa que resolvesse o problema e cessasse o desconforto.
Mas, em vez disso, ou melhor, ao invés, vista a contrariedade, somos obrigados a tolerar a agonia do processo de resolução daquilo que esperamos e, inda mais, tolerar a própria tolerância. Precisamos nos acostumar conosco e nos habituarmos ao pouco que podemos fazer. Alguns tolos tentam se iludir, esquecer, rezar, pedir aos céus, fazer sacrifícios inoportunos e inúteis; outros tolos, talvez inda mais convictos de sua inaptidão para cuidarem sozinhos de suas vidas, tentam outros caminhos que podem ser atalhos ou, pelo menos, desvios. Em ambos os casos, encontramos apenas o fracasso e a covardia.
Devemos ter força e perseverança na espera. Quem espera mostra a elevação de um espírito cultivado, de um intelecto aguçado e preparado para reagir quando for a hora oportuna. Esperar é uma estratégia e uma arte. Precisamos de ambas: a frieza de alguém calculista e a paixão de um coração que sonha com a melhor resolução.
Os espíritos mais elevados devem fazer da inquietude a arma mais forte para manter a dignidade, a racionalidade e a elegância. É impossível não se deixar invadir pro sentimentos afoitos, ferozes, que atormentam a mente e corroem a razão. Ficam dilacerados os vestígios e os fragmentos de lucidez. Mas o além-do-homem deve estar ereto e elevado. Sempre forte e jamais suplicante. Afinal, no final, somos apenas nós o interesse de nossa existência. A humanidade, amigos, a huminadade nada mais que é uma série de coincidências e circunstâncias.
E nós, nós sempre seremos e sempre estaremos, pois somos extemporâneos. Não pertencemos ao rebanho preso no tempo/espaço/contexto; jamais deixaremos uma amiga mão se nos oferecer ajuda e jamais permitiremos que ombro algum possa ser consolo. Somos inconsoláveis e imperdoáveis. Somos atrozes inimigos da moral e dos bons modos!
E esperamos, pois a vida, para nós, nada mais do que uma longa espera para a libertação de nosso espírito dessa terrena condição. Não, não acreditamos em deuses, em vidas, em dimensões; apenas cremos no sagrado tempo/espaço, que, enquanto leva todos a decadência, nos faz, vinho grand cru, maiores e superiores. Amadurecemos os frutos tardios de uma vida violada, de uma existência extinta. Somos estes, e não tememos quem somos, muito menos quem sois.
Nosso manifesto é uma carta nunca enviada, um poema nunca lido, uma revolução sequer imaginada, uma canção por escrever... nossa vida é um atentado contra a ordem e o vazio da pragmaticidade quotidiana. Não somos condenados a sermos quem somos, pois, além de nossa existência derrubar e detonar as toneladas de convenções e de auto-imposições, não estamos presos à escolha ou à pressa: somos aqueles para quem não há tempo ou opções, apenas somos - sem talvez sequer sermos!
Apenas esperamos. Esperamos a próxima noite, com a certeza de que a companhia do amigo Zarathustra está (bem) mais próxima. Esperamos um novo dia que se assemelha a uma boa lembrança ou, até mesmo, que se assemelhe àquele dia que nunca viveremos, mas que sempre esperaremos.
Esperamos, acolhemos, aguardamos, colhemos. Somos cultivadores da arte e do intelecto aguçado. Não importam escolhas, resultados, circuntâncias, atos, falhas, memórias, reputação. Não importa nenhum fato objetivo, externo, exterior, pois somos seres reclusos em seus corpos. A existência acontece dentro, não fora ou perto. Acontece dentro e longe, longe do tumulto, do grito mudo da multidão devassa incrontolada, embriagada da sobriedade taciturna e incongruente da vida desperdiçada em mais um dia acordado cheio de agitos e de compromissos.
A existência que não pode sequer negar-se a si mesma, pois jamais existiu. Somos o contra-fato daqueles que já nascem mortos, mornos, águas que nunca moveram moinhos, mas que já passaram pelo córrego. Moscas melancólicas, alcatéia doméstica, rebanho soterrado. Mal amados adoradores dos preceitos e preconceitos sagrados. Em seu manto carregam mentiras, mantras de atrizes e atores degenerados, esquecidos pelos presente, renegados pelo passado.
E nós, amigo, não não estamos em distâncias ou em roteiros; não somos passageiros, nem vento ou brisa. Somos a rocha - to be a rock and not to roll, tell us the song, doesn't it? - que espera, que vê a tragédia, a comédia, as dores e farras dos quotidianos humanos. Somos a rocha que vê tudo, que passa por todos, e que permanece. Somos o peso insuportável de todos os fardos inda não carregados.
Esperamos pela noite vindoura.