quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Criar uma canção
pode ser

fatal pode
ser feroz pode
ser infantil pode
ser doloroso pode
ser horrível pode
ser tristeza pode
ser real realeza
não pode ser um
desabafo não pode
ser um conselho não
pode ser um choro não
pode ser contemplação

segunda-feira, 19 de julho de 2010

amantes

só de saber que todo o passado era
escola ensaio rascunho
para os dias que agora
são vida luz desatino punhos

que escrevem a própria história
que tecem-se a si mesmos
belos traços torneados
pelos encantos dos teus gracejos

e sem rodeios beijo-te a boca em flor
e teus olhos esmeraldas pétalas
chego-te aos meios com fúria e amor
e perco-me nas tuas curvas e retas

nos teus desenhos e contornos
cantares após o coito
ao sono somente o conforto
do corpo caído, outrora afoito

e agora apenas afeto
pronto para fazer-te bem maior: o feto
pronto para lamber-te clitóris e pescoço
pronto para qualquer alvorada qualquer
alvoroço


e ao altar irei
e às alturas fui vou sempre
majestoso feito rei
ou enlouquecido
por teus olhos
entorpecentes

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Os sonhadores

Na primeira vez que eu estive em Paris, eu pensei: somente os franceses, somente os franceses colocariam um cinema dentro de um palácio. Esta é a frase inicial do filme “Os Sonhadores”, e o personagem Matthew, interpretado por Michael Pitt, ao dizê-la revela-nos uma obra que ilustra e homenageia a produção cinematográfica, sobretudo filmes clássicos como Bande à Part e Luzes da Cidade e grandes atores, entre eles Chaplin, Keaton e Dietrich.

O diretor Bernardo Bertolucci apresenta ao expectador a história de Matthew, jovem americano que vai à França para estudar a língua local, e de dois irmãos peculiares: Isabelle e Theo, vividos respectivamente pela estreante Eva Green e pelo talentoso galã francês Louis Garrel. O trio possui uma ligação bastante forte, qual seja, a paixão pelo cinema. Os três, diga-se de passagem, conheceram-se na Cinèmathèque Française, local de encontro entre os cinéfilos e também das primeiras manifestações revolucionárias da agitadíssima França dos anos 60.

Com o desenvolver da trama, o expectador assiste a uma intensa e crescente intimidade entre os personagens protagonistas, iniciada no convite de Isabelle e Theo para que Matthew jantasse em sua casa; nesta oportunidade, o jovem americano é convidado também para permanecer uma temporada na casa dos dois irmãos, visto que seus pais viajariam ao litoral.

Além de introduzido em uma cultura diferente e de não falar fluentemente a língua francesa, Matthew tem seus costumes e regras paulatinamente subvertido por seus novos amigos franceses; sem perceber, ele entra no jogo de provações e de desafios no qual ambos os irmãos vivem.

O filme de Bertolucci ilustra também o período revolucionário que desencadeia os fatos históricos de maio de 1968, aspecto trabalhado com coerência pelo diretor, que em nenhum momento trata com descaso a ficção ou a usa como pretexto para remontar a França da década de 60.

Bertolucci, pelo contrário, presenteia o expectador com uma intensa relação entre a trajetória particular de cada pessoa e o desenrolar histórico de toda uma sociedade; além disso, o diretor retrata a contra-cultura e os anos mais socialistas e rebeldes de nossa recente história, e tudo isso embalado ao som de ilustres nomes do Rock ‘n’ Roll, como Janis Joplin, Jimi Hendrix e Eric Clapton.

A resolução do filme acontece com uma belíssima câmera parada frente a um pelotão policial prestes a atacar a massa revolucionária enfurecida nas ruas; após a passagem da força policial, o expectador vê apenas uma rua vazia, que cria a sensação de que a história é fragmentada, subjetiva e parcial, mesmo que esteja sob um olhar objetivo e estático. Ao mesmo tempo, o trio, que já mostrava indícios de afastamento, separa-se totalmente em meio ao protesto: Matthew opta por evitar o confronto direto, ao passo que Theo é o primeiro homem da frente de ataque, munida de molotóvs e de sonhos. Isabelle, inicialmente indecisa, prende-se novamente a seus laços umbilicais ao preferir ser cúmplice de seu irmão.

Ao encerramento do filme, o expectador vê-se diante de um conflito entre a realidade e o sonho, a possibilidade e o fato. Esse dilema traduz-se na fala do personagem pai dos gêmeos Theo e Isabelle: “antes de transformar o mundo, você precisa saber que faz parte dele também”. Assim, Bertolucci encerra uma história com um convite para (re)escrevermos outra.

Antes do Amanhecer

Título Original: Before Sunrise

Tempo de duração: 105 minutos

Direção: Richard Linklater

Roteiro: Richard Linklater e Kim Krizan

Fotografia: Lee Daniel

Direção de arte: Florian Reichmann

Figurino: Florentina Welley
Edição: Sandra Adair

Elenco: Ethan Hawke , Julie Delpy , Andrea Eckert , Hanno Pöschl , Karl Bruckshwaiger

O diretor Richard Linklater, nascido em Houston, EUA, desconstrói nesta obra toda a caricatura dos romances norte-americanos: seus personagens são redondos, densos, intimistas e verossímeis; sua narrativa é circular, fluida, coerente e, sobretudo, poética. O filme aborda a existência e as relações humanas e, ao fazê-lo, expõe uma teia de fatores que desencadeiam o fluxo da vida: o acaso, a escolha, a impulsividade, a passionalidade e, creio, o mais importante: o compêndio de auto-contradições e de dúvidas que nós, os humanos, experenciamos.

Jesse (Ethan Hawke) e Celine (Julie Delpy) são os protagonistas desta efêmera e, ao mesmo tempo, marcante experiência (não apenas sexual, turística ou romântica, como também existencial). Ambos casualmente encontram-se em um trem com grandes janelas, de onde temos a ambigüidade fértil de sentirmo-nos observadores e observados. A partir disso, o filme tece uma história que poderia ser considerada uma (quase) fábula ou uma história quotidiana (e sem ser incoerente!), ao expor o lirismo das situações quotidianas e a beleza trágica – por vezes cômica – das fragilidades (não com alguma conotação ruim) e dos desejos humanos.

Na realidade, o roteiro aborda uma história que poderia ter acontecido - ou que poderá acontecer – com qualquer um de nós: sentir empatia por alguém desconhecido, aproximar-se dessa pessoa, sentir-se bem a seu lado e buscar nela os limites de nossa própria existência. Há de se admitir, contudo, que é necessário um trabalho criterioso para não resvalar para uma caricatura pueril nem tornar os personagens demasiado surreais para o espectador. O que, de fato, é feito com maestria: Jesse e Celine são personagens desenvolvidos gradualmente ao longo da narrativa e, também, dos cenários (Jessé, o viajante à procura de algo que não se sabe, por exemplo, estabelece uma forte relação entre seus sentimentos e as estações de trem (partida x chegada, movimento x permanência, observar x mostrar-se).

Outra característica vital para a o efeito universal que esta história tem é o fato de que ela não estabelece limites rígidos para a imaginação do espectador: Jesse é um rapaz norte-americano que perdeu a namorada e vaga por aí, ao passo que Julie é uma francesa em seu quotidiano que resolve correr o risco e se certificar de que aquele não era o homem de sua vida, este conforme o argumento (quase) irrefutável de Jessé. O espectador, dessa forma, pode criar uma empatia por qualquer dos personagens, pois há uma série de características com as quais pode se identificar: ser aventureiro, ter perdido alguém de que gostava, sentir-se confuso e procurar algo novo, tentar tornar a vida mais atraente, explorar lugares e possibilidades com uma boa companhia ao lado, et cetera.

Tal processo híbrido de lirismo poético e coisas do dia-a-dia, de fábula e de vida quotidiana, de uma história extremamente singular e tão irredutivelmente universal fazem de Antes do Amanhecer um filme que traz ao espectador a sensação de que conhece uma história igual àquela e de que jamais existiria uma história igual àquela. Igualdade esta que remonta o eterno retorno nietzscheano, e dessa intertextualidade podemos pensar que “tudo o que se faz por amor faz-se sempre para além do bem e do mal”.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Reatar retalhos
retornar eternamente
displicente caminhante
perdido em teus (a)talhos

quarta-feira, 19 de maio de 2010

presságio

Tenho andado rútilo-cintilante neste mundo esvaecido
Tenho sido desvanecido-andante nestas horas tolas-rutilantes
Todas faces metafóricas por ilusões retóricas de mim mesmo
Tantas facas ilusórias que atravessam meu rosto, eu vejo

No espelho desmontado
já destoado de sua imagem distorcida
de seus travos reprimidos
traços escondidos de um ator sem fala
de um autor sem voz
de um crime atroz jamais cometido!

E cantassem o mais alto dos cantos
e entoassem a mais bela canção
estaríamos surdos perante tais encantos
e estaremos vivos-mortos nos dias que virão!

quarta-feira, 3 de março de 2010

prece

Escrevo. Porque me excedo.
E estou sozinho e feliz. Estranhamente calmo e úmido.

Escrevo porque já perdi as contas de todos os que fui e partiram de mim,
sem deixar uma parte sequer inteira.

Cansado de carregar o peso de um ego envaidecido e de personagens esboçados,
hoje mal tenho uma mochila com poucas roupas,
e as lembranças, ah, as lembranças estão todas no passado!

Sem peso, dor, remorso ou vingança.

Apenas sou leve e constante em minha inconstância.
Apenas sou peixe desmemoriado.
O espírito rebocado de lágrimas e beijos.

Sorrisos imprecisos no canto da boca
A roupa simples que eu nem lavei
Cara de sono e palavras arrastadas
que não escondem mais as verdades
as calamidades
e as poucas vergonhas que sei


Eu estou sozinho e triste
e feliz por estar só e sentir tristeza
e por isso escrevo
em tua homenagem
em teu louvor
santinha do pau oco
amigamante que tenho
e me consome os primeiros minutos de sono

e por vezes me desperta
eu disperso na quimera formalidade


Eu sou tolo em minha loucura
E são em minha insanidade
Não tenho mentiras bonitas
Hoje vivo só - ouro in verdades

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Prosaico e prezado Dioniso,

escrevo-te para contar boas novas. Dizer que tua vida inda não foi vivida nem está morta: é o primeiro gole da garrafa recém aberta. Escrevo-te para pedir um pouco mais de plenitude e paz: poderíamos perturbar estas protuberâncias improváveis, este quotidiano afoito e afobado. Mas saberemos manter em nós aquele que somos, pois é isso o que, de fato, somos. Extemporâneos e intempestivos!

Os espíritos mais elevados devem fazer da inquietude a arma mais forte para manter a dignidade, a racionalidade e a elegância. É impossível não se deixar invadir por sentimentos ferozes que atormentam a mente e corroem a razão. Ficam dilacerados os vestígios e os fragmentos de lucidez. Mas o além-do-homem deve estar ereto e elevado. Sempre forte e jamais suplicante. Afinal, no final, somos apenas nós o interesse de nossa existência. A humanidade, amigos, a huminadade nada mais é que uma série de coincidências e circunstâncias.

E nós, nós sempre seremos e sempre estaremos, pois somos extemporâneos. Não pertencemos ao rebanho preso no tempo/espaço/contexto; jamais deixaremos uma amiga mão nos oferecer ajuda e jamais permitiremos que ombro algum possa ser consolo. Somos inconsoláveis e imperdoáveis. Somos atrozes inimigos da moral e dos bons modos!

E esperamos, pois a vida, para nós, nada mais é do que uma longa espera; cremos no sagrado tempo/espaço, que, enquanto leva todos à decadência, nos faz, vinho grand cru, maiores e superiores. Amadurecemos os frutos tardios de uma vida violada, de uma existência extinta. Somos estes, e não tememos quem somos, muito menos quem sois.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

noticiário

O desespero de esperar, já nos disse Humberto Gessinger, faz do paraíso noturno um verdadeiro inferno. A agonia da espera é algo que nos atormenta por nos limitar a nossa impotência e pouca importância: somos, simplesmente, obrigados a brindar uma espera que pode não cessar. Esperar algo, com certeza, é um sentimento que nos impede de sentir qualquer outra sensação, de tomar qualquer outra atitude... estamos presos ao nosso - fraco - autocontrole e a nossa agonia.

Quem espera, aos poucos, se toma pela dor, pela força, pela conformação da espera. Só nos resta esperar, já diz o adágio popular. Estamos todos cientes que, em momentos de espera, qualquer atitude tomada contra esse esperar é um ato forçoso e insensato que tende a nos atormentar ainda mais - até mesmo quando isso já não parece ser possível e, com toda a certeza que se pode ter, já não mais é verossímel.

Esperar é afirmar que não podemos algo; quando espero, é porque não posso resolver por mim mesmo, seja da maneira que for, na circunstância que for, o assunto que for, no tempo/espaço que eu estiver. Esperar é afirmar que nada mais podemos fazer e, assim, nossa existência nos limita a nós mesmos, o que nos leva à impotência, de forma ad infinitum; se não fosse assim, isto é, se fôssemos úteis ou capazes, não precisaríamos esperar. Poderíamos tomar uma iniciativa que resolvesse o problema e cessasse o desconforto.

Mas, em vez disso, ou melhor, ao invés, vista a contrariedade, somos obrigados a tolerar a agonia do processo de resolução daquilo que esperamos e, inda mais, tolerar a própria tolerância. Precisamos nos acostumar conosco e nos habituarmos ao pouco que podemos fazer. Alguns tolos tentam se iludir, esquecer, rezar, pedir aos céus, fazer sacrifícios inoportunos e inúteis; outros tolos, talvez inda mais convictos de sua inaptidão para cuidarem sozinhos de suas vidas, tentam outros caminhos que podem ser atalhos ou, pelo menos, desvios. Em ambos os casos, encontramos apenas o fracasso e a covardia.

Devemos ter força e perseverança na espera. Quem espera mostra a elevação de um espírito cultivado, de um intelecto aguçado e preparado para reagir quando for a hora oportuna. Esperar é uma estratégia e uma arte. Precisamos de ambas: a frieza de alguém calculista e a paixão de um coração que sonha com a melhor resolução.

Os espíritos mais elevados devem fazer da inquietude a arma mais forte para manter a dignidade, a racionalidade e a elegância. É impossível não se deixar invadir pro sentimentos afoitos, ferozes, que atormentam a mente e corroem a razão. Ficam dilacerados os vestígios e os fragmentos de lucidez. Mas o além-do-homem deve estar ereto e elevado. Sempre forte e jamais suplicante. Afinal, no final, somos apenas nós o interesse de nossa existência.  A humanidade, amigos, a huminadade nada mais que é uma série de coincidências e circunstâncias.

E nós, nós sempre seremos e sempre estaremos, pois somos extemporâneos. Não pertencemos ao rebanho preso no tempo/espaço/contexto; jamais deixaremos uma amiga mão se nos oferecer ajuda e jamais permitiremos que ombro algum possa ser consolo. Somos inconsoláveis e imperdoáveis. Somos atrozes inimigos da moral e dos bons modos!

E esperamos, pois a vida, para nós, nada mais do que uma longa espera para a libertação de nosso espírito dessa terrena condição. Não, não acreditamos em deuses, em vidas, em dimensões; apenas cremos no sagrado tempo/espaço, que, enquanto leva todos a decadência, nos faz, vinho grand cru, maiores e superiores. Amadurecemos os frutos tardios de uma vida violada, de uma existência extinta. Somos estes, e não tememos quem somos, muito menos quem sois.

Nosso manifesto é uma carta nunca enviada, um poema nunca lido, uma revolução sequer imaginada, uma canção por escrever... nossa vida é um atentado contra a ordem e o vazio da pragmaticidade quotidiana. Não somos condenados a sermos quem somos, pois, além de nossa existência derrubar e detonar as toneladas de convenções e de auto-imposições, não estamos presos à escolha ou à pressa: somos aqueles para quem não há tempo ou opções, apenas somos - sem talvez sequer sermos!

Apenas esperamos. Esperamos a próxima noite, com a certeza de que a companhia do amigo Zarathustra está (bem) mais próxima. Esperamos um novo dia que se assemelha a uma boa lembrança ou, até mesmo, que se assemelhe àquele dia que nunca viveremos, mas que sempre esperaremos.

Esperamos, acolhemos, aguardamos, colhemos. Somos cultivadores da arte e do intelecto aguçado. Não importam escolhas, resultados, circuntâncias, atos, falhas, memórias, reputação. Não importa nenhum fato objetivo, externo, exterior, pois somos seres reclusos em seus corpos. A existência acontece dentro, não fora ou perto. Acontece dentro e longe, longe do tumulto, do grito mudo da multidão devassa incrontolada, embriagada da sobriedade taciturna e incongruente da vida desperdiçada em mais um dia acordado cheio de agitos e de compromissos.

A existência que não pode sequer negar-se a si mesma, pois jamais existiu. Somos o contra-fato daqueles que já nascem mortos, mornos, águas que nunca moveram moinhos, mas que já passaram pelo córrego. Moscas melancólicas, alcatéia doméstica, rebanho soterrado. Mal amados adoradores dos preceitos e preconceitos sagrados. Em seu manto carregam mentiras, mantras de atrizes e atores degenerados, esquecidos pelos presente, renegados pelo passado.

E nós, amigo, não não estamos em distâncias ou em roteiros; não somos passageiros, nem vento ou brisa. Somos a rocha - to be a rock and not to roll, tell us the song, doesn't it? - que espera, que vê a tragédia, a comédia, as dores e farras dos quotidianos humanos. Somos a rocha que vê tudo, que passa por todos, e que permanece. Somos o peso insuportável de todos os fardos inda não carregados.

Esperamos pela noite vindoura.
todo o bom malandro sabe que
um dia a malandragem chega ao fim

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

A maior virtude que uma pessoa pode adquirir com a prática, o método e o rigor é, sem dúvida, a capacidade de observar. Observar com todos os sentidos: ouvir, tocar, ver, cheirar e provar o mundo. O observador é, sem dúvida, alguém que se distância, que procura uma visão privilegiada e ampla.

Por certo, o observador jamais se envolverá intimamente em sua vida ou se aproximará emocionalmente de seus queridos entes. Para observar, é necessária a frieza, e o auto-controle, indispensável. Para observar, é necessário saber narrar, organizar e comentar os fatos sem juízos de valor. Não se pode, também, confiar na memória ou entregar-se ao conforto e à vontade. Observar, ao invés de prazer, é incômodo. O observador precisa estar inconformado e incomodado. Alguém confortável e cômodo jamais perceberá as sutilezas e o desdém da vida para consigo mesma.

Observar é uma técnica que exige calma e elegância; precisa-se, com toda a certeza e propriedade, saber ver o espaço e situar-se nele e no tempo. O observador necessita organizar os fatos em distância espaço-temporais imediatas, breves, intermitentes, incessantes, longas, infindáveis e inalcançáveis.

Há de se perceber que o observador necessita de esboços sólidos e precisos. Não se pode concluir e procurar indícios da conclusão. O correto é sempre recriar a história conforme velhos e antigos acontecimentos, para que se possam perceber as mudanças inerentes aos fatos. O observador precisa encontrar a sujeira debaixo do tapete, mas, também, precisa entender a sujeira e o tapete. O observador não pode ser impressionável nem crédulo; muito menos poderia ser ingênuo ou romântico.

Quem observa, ao fazê-lo, precisa do espírito elevado e paciente. Observar é, por definição, negar a existência para poder compreendê-la e contemplá-la à distância.

A (à?) distância do presente

Quando o cansaço é maior que o desejo, sentimos a conformação da memória e da projeção. Se por um lado estamos fatigados demais para viver, por outro podemos transformar tal verbo em formas conhecidas: o vivido e o por viver. Distanciamo-nos, assim, daquele que somos; a se partir do pressuposto niilista e impressionista de que somos apenas no vago e fugaz momento de ser, podemos cometer o erro indelével de adiar a existência.
Pense comigo, leitor amigo: a recordação nos faz sentir novamente aquilo que vivemos sem, de fato, estarmos vivendo aquilo que recordamos! Por sua vez, a projeção, a espera, a expectativa de novos dias nos fazem sonhar com o dia que será vivido sem, com propriedade, podermos viver o dia que ainda não chegou.

Assim, passam-se os anos, pagam-se as contas, vencem-se os problemas. O tolo amigo, no entanto, não percebeu que esta é uma eterna transferência de viver. Não vivemos hoje, pois hoje podemos recordar o vivido ou imaginar o ainda não vivido. Ambos não são o que vivemos. E o que vivemos resume-se àquilo que esses são, sem, no entanto, esses serem verbos conjugados no presente. Isto é, afligimo-nos com o agora. O agora é tão concreto que não é possível sua abstração. Acontece e, ao acontecer, acontece novamente. Não podemos, dessa forma, segurar, prender, tomar o momento presente. Somos por ele levados e elevados. A permanência só há na mudança. Mundana, apesar.

Eis o peso de tal concepção: jamais haverá permanência. Estamos condenados a perder tudo o que conquistamos depois de conquistado. Um campeão ao vencer seu campeonato precisa ganhá-lo novamente para continuar em sua condição - condição inconsútil a ser e estar sendo, sem ter sido ou vir a ser.

Assim, nunca seríamos quem fomos nem quem seremos. Nem seremos o que somos ou o que fomos. Nem fomos o que somos ou seremos. Pode-se dizer, contudo, que esta é uma questão de linguagem; pois enganam-se novamente os famigerados amigos da moral! Todas as questões são questões de linguagem. O tempo, a existência, o espaço: são linguagens.

Pretendia o mestre Schopenhauer o absoluto espaço-tempo, únicos conceitos cuja significação não seria nem vontade, nem : - -; porém, por outro lado, a percepção ainda condiciona-se às mãos que tocam e aos olhos que contemplam. Completa-se, assim, a incondicionalidade da fragmentação da razão. Não, caríssimo, jamais afirmei tal despropriedade: não hei de afirmar que não há objeto e verdade objetiva. Seria um erro relativista, com o perdão do pleonasmo. Apenas nós, astutos observadores, sabemos de tamanha disparidade entre o conceito e o fato! Mas sabemos igualmente, nós, espíritos elevados, que há, na noção de humano, um certo excesso de condição humana.

Postulamos assim, amigo, as condições incongruentes de nossa existência, à margem de si mesma.

Impressões

Bordados

Desbotados

E borrões

E berros

E aberrações

E bocas

Secas

Folhas

Fezes

Fartas

Falhas

Frases

Fases

Faces

Fáceis

Flácidas

Fraturas

Frígidas

Frigidas

Fritas

Em filetes

Em filas

Em fitas

Em fosso

Nos ossos

No rosto

No corpo

No resto

No todo

Nos tomos

E tombos

No lombo

No limbo

Onde todos são

Sem saber o que são

Nem saber o porquê de ser

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

La lune d'octobre


Ethan est descendu du train. Il a regardé la ville. Il a respiré la ville. Il a touché la ville. Il l'a baisée, il l'a sentie, il a aimé Paris. Dans ces rues, il a passé des jours, des soirs, des nuits et des difficultés. Etahn est allé aux café "L'étranger", une place douillet. Dans le café, il a regardé la nostalgie et la surprise: les mêmes chaises basses, les mêmes photos fanées, les mêmes bouteilles vides utilisées pour la décoration... 

Cependant, on a eu, lecteur, un regarde different de tous les yeux jamais vus (dans le café). Elle s'appellait Julie et elle était française. Julie avait des cheveux bruns sur les épaules et elle était tentatrice. Julie portait une chemise boutonnée jusqu'au haut du cou, un foulard que semblait prometteur. Sur son poignet, un petit tatouage avec le phrase "Je pense donc Je suis"; Ethan a demandé discretement si Julie aimait René Descartes. Julie a répondu qu’elle aimait la phrase, et non l’auteur. Julie a dit qui si “n’aimer pas” signifie simplement être indifférent, sans l’amour ou l’haine, donc, oui, mais si “n’aimer pas” signifie detéster, donc, non. Ethan a eté surpris par une réponse très complexe à une question qui exige une réponse simple, “oui” ou “non” par example. 

Ethan a demandé un café. Julie lui a servi. Ethan a dit que son français n’est pas parfait, mais Il aimes les rues de Paris. Julie lui a dit qu’elle aimait lês poissons.Ethan était d’accord. Ethan a déclaré qui l'océan était sa passion. Julie lui a dit qu’elle préfére la stabilité d'un aquarium.

Les deux personnages ont compri, à ce point du cette histôire, qui avaient une connexion attractive et irréparable entre les passions et les problèmes de leurs vies. Julie était quelqu'un qui avait besoin d'un monde derrière un bureau: solide, où elle voit tout, où elle attend les demande et où elle rêve les rêves et las realités.Ethan jamais a habite pas au même place. Sa vie etait un éternel aller pasque il ne sais pas “séjourner”. Ethan savait qu’il voyageait parce qu’il n’a eu pas une destination. Julie tenaitl’eaux, lês poissons et lês rêves. Ethan jamais les possédé.