terça-feira, 17 de novembro de 2009

Paris não é uma festa

Ethan desceu do trem. Olhou a cidade. Respirou a cidade. Tocou a cidade. Beijou, sentiu, amou Paris. Naquelas ruas, Ethan passou dias, noites, apuros. Ethan foi ao café L’étranger, lugar em que sempre foi. Lá, encontrou a nostalgia e as surpresas: viu as mesmas cadeiras baixas, os mesmos quadros desbotados, as mesmas garrafas vazias utilizada na decoração. Viu, no entanto, um olhar diferente de todos os olhares já vistos no café. Chamava-se Julie. Era francesa, estatura média, cabelos castanhos desenrolados sobre os ombros; Julie era uma mulher sedutora e discreta. Julie usava uma camisa abotoada até o alto do pescoço, onde surgia um lenço luminoso. Em seu pulso, havia uma pequena tatuagem com a frase “Je pense donc je suis”; Ethan perguntou, discretamente, se Julie gostava de René Descartes. Julie respondeu que gostava da frase, não do autor. Ethan perguntou se ela não gostava do autor. Julie respondeu que, se não gostar significa simplesmente ser indiferente, sem amar nem odiar, então, sim, mas, se não gostar significasse detestar, então, não. Ethan ficou assustado com uma resposta tão complexa para uma pergunta em que se diz “sim” ou “não”, geralmente. Ethan pediu um café. Julie serviu-lhe. Ethan disse que, apesar do seu francês ruim, gostava das ruas de Paris. Julie disse-lhe que gostava de peixes. Ethan concordou. Ethan disse que o oceano era sua paixão. Julie disse-lhe preferir a solidez de um aquário. Ambos os personagens perceberam, a esta altura da narrativa, que havia uma atrativa e irreparável ligação entre as paixões e os problemas de sua vida. Julie era alguém que precisava de um mundo atrás de um balcão: sólido, de onde tudo se vê, de onde se esperam os pedidos e de onde se sonham os sonhos e se sonham as realidades. Ethan não conseguiu jamais prender-se a um lugar. Sua vida era um eterno partir por não saber permanecer. Ethan sabia que viajava demais por não ter um destino. Julie prendia águas, peixes e sonhos; Ethan jamais os possuiu.

Ethan pagou o café e disse au revoir.