Não há o que se buscar na vida. A vida é simplesmente um suceder de fatos distantes, aleatórios, estéreis. A vida nada tem de belo, de complexo ou sequer mesmo de sentido.
Somos uma composição de pequenos fatores; de certa forma, somos reduzidos a átomos, que nada têm de humanos. Somos composto por coisas que não são aquilo que somos. Somos outros. Estranhos.
E o tempo, tão incompreensível? Risível nossa tentativa de entendê-lo, se a cada dia que se nos apresenta já somos o passado do que já foi e já não é nem será. Que ser estranho é esse que nos consome?! Não podemos fugir de nós mesmos. Não podemos ter outra consciência que não a nossa. Nem outro andar, nem outra voz. Não somos nada que não seja nós mesmos, e, mesmo assim, nós mesmos não somos nós.
Em um formigueiro com seis bilhões de formigas, a morte de uma seria insignificante. Quantas pessoas morrem em um dia e nem sabemos que elas nasceram, menos ainda que morreram? Quantas pessoas estão a um passo, a um sopro da morte neste exato instante? Quantas pessoas passam por mim e eu não sei de seus desejos, de seus problemas, de suas dúvidas, de suas taras ou mesmo de suas futilidades!
Por que haveria de ser a minha vida mais importante do que a de qualquer uma dessas formigas? E o bom gosto, e a are, e a inteligência? Do que valem? Do que vale ser menino prodígio nesse antro de velhos atrasados, reumáticos e frouxos?
Para que hei de me perguntar o que a moça da esquina sente por mim se ela sequer consegue compreender uma poesia, que dirá, então, de um amor idealizado em passos sobre o asfalto molhado? Para que terei que deixar meus escritos se meus leitores não sabem ler?
Por mais elevada que seja minha vida, e ela não é, a vulgaridade do mundo é tamanha que eu só poderia voar nos meus sonhos, preso no silêncio vazio do meu quarto. Os superiores são condenados ao silêncio e ao vazio; apenas no isolamento podem manter-se superiores.
Toda vez que uma pessoa de gosto cultivado aproxima-se de uma de gosto inferior, prevalece a tolerância da primeira em relação à segunda. Sente-se pena da mediocridade: por isso é tolerada. E por isso persiste em existir.
Procurar profundidade em um organismo composto de carne e osso é uma perda de tempo. Somos um instinto egoísta e imediato.
Toda a humanidade está condenada a si mesma.

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