terça-feira, 22 de setembro de 2009

Retinas

Eu vejo em cada novo rosto que se me apresenta um outro rosto que já vi dobrar a esquina, um transfigurar sombrio de semblantes e de dizeres, um sem-fim de finos gestos e de faces flácidas.

A cada página virada, o livro pestaneja e retrocede um velho enredo outrora narrado por outros narradores em outras narrativas.

Tudo é uma recombinação desajustada de fatores oblíquos, perenes e voláteis. Não há identidade nem permanência; a velocidade de cada metáfora tamanha é que cada sentido só existe enquanto concebido, pois, se verbalizado, já torna a ser um outro ser que se distingue do primeiro.

Assim, passam-se anos e gerações; vejo velhos sonhos vestidos de remendos e retalhos, de desilusões descoloridas, desbotadas, turvas e foscas.

Os narizes são tão tortos, e as testas, tão rígidas. Que corpo estéril em que se coíbe qualquer comportamento vivo, pois é resto roto, tracejado de compartimentos soltos, vazios, esguios, lânguidos, de pedaços mortos.

Amorfos metamórficos – matéria artificial.

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