quarta-feira, 1 de julho de 2009

"Trocas" ou "Autoconfirmação"

- oi.

- oi!

- tudo bem?!

- ah, tudo! E tu?

- também. Vem sempre aqui?! Não, não era isso o que eu queria te dizer! Eu sempre tive recaídas com clichês, mas já estou em terapia!

- é mal de morte?

- todo o mal é mal de morte.

- por quê?

- eu não sei, mas eu queria dizer isso. Aliás, retomando, eu queria apenas conversar contigo. Desculpe, novamente, pelo clichesismo!

- conversar sobre...?

- ah, sobre o que tu gostaria?

- quem queria conversar era tu...

- apenas fiz uma pesquisa de opinião.

- e o resultado?

- ainda não foi divulgado. Posso te informar um outro dia.

- outro? Dia? Outro dia?


- se coincidentemente a gente se encontrar outro dia.

- por coincidência... entendo.

- mesmo?!

- não. Só queria dizer isso.

- essa fala era minha.

- já estava ensaiado, é?!

- de forma alguma. Claro que a gente sempre pensa no que vai falar, mas nunca se ensaia. Nem se improvisa. Engraçado: não temos a eficácia do que é ensaiado nem a criatividade do improviso. O que nos resta?

- eu gosto de restos.

- eu gosto de pratos cheios.

- somos almas gêmeas, então?!

- não, gêmeas seriam se gostássemos da mesma coisa, não é isso?!

- ah...

- tudo bem. Podemos ser almas gêmeas, não há problema por mim.

- estimulante: “não há problema”. Assim, fico louca. Aliás: melhor cantada que já levei. Por que não me fode agora mesmo?!?!?!?!

- desculpe...

- que moço bem educado. Conhece o filme A Má Educação?

- com o Gael?


- esse.

- já vi, mas não lembro muito bem... gosta de cinema?

- se não me engano, sim.

- como assim “se não me engano”?

- sou esquizofrênica.

- hmmmm...

- mentira, bobão. Era piada.

- ah, tá! Uma piada!

- não muito boa, pelo visto...

- se não me engano, sim.

- sim = não muito boa?

- sim = não muito boa.

- ah, a fala era minha.

- já tava ensaiado, é?!

- não. Sabe, nunca temos a precisão de uma peça ensaiada nem a espontaneidade de uma cena improvisada...

- o que te resta, então?

- pratos cheios, enquanto os outros comem restos...

- tu já viu o filme Antes do Amanhecer?

- o americano francês?

- não, o americano e a francesa.

- não, eu quis dizer o filme americano que parece cinema francês.

- ah, esse mesmo! Boa definição!

- sou boa em muitas coisas...

- quais outras?

- não to falando de sexo...

- nem eu!

- jura!


- claro que não! Eu sou um bom rapaz!

- e eu também.

- tu também é um bom rapaz?

- não, uma boa moça. Esperto.

- quem dera eu fosse... eu falo mal de toda essa gente pragmática, mas só posso dizer que eles são o que eu não conseguiria ser nem com todas as minhas forças...

- se fosse, eu pediria uma cerveja.

- por quê?

- me aproveitar da situação.

- esperta.

- obrigada.

- quer uma cerveja?

- não.

- tequila?

- pode ser.

- vamos lá, então.

- sabia.

- o quê?

- eu sabia... foi só dizer que eu pediria para um pragmático, que você já me ofereceu... é uma disputa?

- não, é boa educação.

- defensor da moralidade?

- só cometo pequenas infrações.

- conte.

- mostro.

- campeão, me fode de novo.

- desculpa... eu to me excedendo.

- e eu não to cedendo.

- eu to chato? Se eu tiver, me avisa.

- não, não tá... se tivesse, eu já teria ido ao banheiro...

- realmente muito esperta! Não se pode esperar nada de uma mulher, elas sempre nos enganam!

- pelo contrário: por isso mesmo se deve esperar TU-DO de uma mulher!

- eu tenho esperança.

- eu tenho expectativas.

- e o que te faria feliz?

- eu sou feliz.

- não fui isso que eu quis dizer, eu quis perguntar quais eram as expectativas...

- qualquer coisa bacana eu topo.

- mesmo?

- se me agradar, sim.

- legal, gosto de mulheres com atitude.

- realmente, faça a terapia...

- não terei outra recaída! Juro!

- falsas promessas! Os homens são os mesmos! Prometem o mundo em troca de uma trepada. E depois dormem.

- nem todos os homens são assim.

- é, alguns não dormem.

- eles sempre são canalhas?

- só quando a gente deixa...

- e quando vocês deixam?

- quando só queremos uma trepada. Aí, prometemos o mundo. E depois, lembramos de um compromisso.

- quanta maldade!

- por isso vocês nos amam.

- por isso.

- quer experimentar minhas malícias, jovem?

- adoraria...

- talvez eu pense no assunto. Qual seu nome?

- e de que isso importa?!?!?!

- eu preciso saber...

- por quê?!

- porque eu quero saber.

- mas sei lá, tu acha que a gente pertence a um nome? Qual é a necessidade disso?

- tu pode me dizer teu nome?

- não me respondeu...

- eu acho que a gente tem um nome e acho que tu pode muito bem dizer qual é o teu. É tão difícil, campeão?

- não...

- então...

- Gabriel.

- Juliana. Prazer!

- Prazer! Depois de meia hora...

- antes tarde do que nunca.

- você também faz terapia?!

- engraçadinho...

- você riu...

- por isso te chamei de engraçadinho.

- mas foi irônico!

- foi um elogio!

- obrigado! Você também!

- como funciona a terapia?

- muda. Depende do dia.
- e hoje, como é?

- hoje é procurar uma pessoa mais clichê do que eu para que eu aprenda a evitar certas coisas...

- já achou...?!!?

- não...

- que bom.

- essas coisas sempre são clichês. Isso de relacionamento... quem não é brega quando ama?

- lá no fundo, talvez sim... mas sou muito racional e equilibrada, não me leve por impulsos.

- eu gosto de coisas leves e fluidas.

- eu gosto daquilo que é pesado, denso, fundo...

- eu acho que te procurei por isso.

- por... ?

- uma vontade de sentir essas emoções fortes e avassaladoras...

- dá pra notar?

- sou ótimo observador.

- e fala demais também!

- é legal conversar...

- ainda mais com esse silêncio todo!

- não podia perder a oportunidade!

- vocês nunca perdem!

- eu nunca perco.

- tu. Nunca vai perder.

- eu sempre quero tudo e mais.

- faminto!

- por isso gosto de pratos cheios!

- por isso só te dão os restos!

- eu não mereço mais que?

- que restos?! Depende. Acho que os restos são melhores, já disse.

- sempre já se disse o que dizemos.

- então qual foi a primeira frase de todas?

- a primeira frase eu não sei, só sei a primeira mentira.

- qual foi?

- “isso não vai se repetir!”

- devem ter outras...

- “confia em mim!”. “é seguro, eu garanto!”.

- “eu te amo!”.

- mas a gente mal se conhece...

- não, essa era uma das mentiras.

- ah, tá.

- e se eu te amasse, mesmo, seria porque mal te conheço. Assumo meu pessimismo: sempre amamos uma projeção do nosso ego.

- narcisismo?

- claro. Eu assumo.

- te ama declaradamente!

- sim, e afirmo. Acho hipócrita esse papo bobo e chato de “ah, não me sinto bem comigo mesmo”. Quem se acha inferior, ainda se acha superior na inferioridade...

- também leio Nietzsche, mas não faço plágio...

- eu não faço plágio!

- não, capaz...!

- é que nem percebi que era uma citação...

- a gente vive citando coisas e não percebe isso.

- sabe?

- quê?

- aquilo que a gente diz, sempre já foi dito por alguém...

- é mesmo?!

- é...

- e então qual seria a primeira frase do mundo?

- eu não sei qual foi a primeira frase, mas sei quem foi a primeira pessoa a reclamar.

- e quem foi?

- Eva.

- do que ela reclamou?

- que o adão não dava mais bola pra ela...

- mas só tinham os dois no mundo.

- por isso mesmo.

- como assim?

- ela é uma mulher!

- e... ?!?!

- só deveria ter ela no mundo. Aliás, o mundo deveria ser ela.

- esse deve ser o pecado original, porque até hoje vocês são assim...

- é que vocês não nos amam o bastante...

- é que isso não é amor, é dependência emocional.

- por isso são traídos.

- se nós traímos, somos canhalhas. Se vocês traem, é um ato de justiça?!

- reducionismo. Não há traição. Somos traidores quando somos monogâmicos, porque traímos a nossa natureza.

- tu não tem vontade de ter alguém contigo?

- eu tenho vontade de ter todos comigo.

- e por que um não basta?

- e por que um bastaria? E mais, não é questão de bastar...

- e do que é?

- é questão de gosto. De bom gosto.

- eu concordo contigo.

- pensei que discordava...

- só queria saber teus argumentos...

- faz sentido.

- só faria se fosse ficção!

- por quê?!

- só a ficção faz sentido... a realidade é caótica.

- não tenha mais recaídas, por favor. E se cuide.

- me cuidarei. E farei terapia. Até.

- Até, Rafael.

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