Augusto Fernandéz não era um homem de abandonar suas convicções; suas conclusões, no entanto, advinham de reflexões dialéticas tão profundas e metódicas que, para dizer uma simples opinião sobre a cor de uma roupa, Augusto precisava pensar, no mínimo, um par de horas. Isso fazia com que a maior parte das pessoas a sua volta desistissem de ouvir sua opinião; não por falta de curiosidade ou de interesse, mas por ausência de tempo e de paciência.
A conseqüência natural foi que Augusto isolou-se dos debates, das mesas de conversa, do palavreado e, por fim, das gentes. Augusto, por certo, refletira diversas vezes sobre o tema e concluíra, nada hesitante, que o mundo estava errado, ao invés de ele estar. Nesse caso, consta o pensamento de Augusto: ou eu estou ou o mundo está correto e, sendo que as pessoas sentem-se insatisfeitas com suas vidas e reclamam demasiado de seus problemas e de suas mazelas, o problema deveria estar com o mundo. Seria o mais lógico. O problema é que ele também sofria desses males. Visto que não era possível fugir de todo ao mundo, Augusto concluiu que essa era uma inevitável conseqüência de se viver.
Augusto, dessa forma, formulou sua tese.
Foi convidado, no entanto, devido a suas notáveis habilidades discursivas, para diversas oratórias nos meios sociais mais diversos; por certo, todas continham a mesma advertência: um pequeno porém mutável aviso de limitação do tempo ou do número de páginas, caso fosse entregue cópia escrita, da oratória de Augusto. Ao fim de três pares de horas, Augusto preferiu rejeitar todos os convites. Segundo ele, não há interesse legítimo em se defender um discurso que já tenha um ponto final antes mesmo da primeira letra.
Augusto, desajustado com o mundo, requestionou-se. Veja bem: suas decisões eram demoradas, porém não havia imutabilidade em suas idéias. Naturalmente, o tempo para questionar e requestionar algo era mais que o dobro da primeira tarefa, pois se necessita de uma síntese nova capaz de englobar as duas anteriores – ou de suplantá-las.
Concluiu, após duas semanas, que ele estava correto. Sempre esteve. Augusto Fernandéz não era um homem de abandonar suas convicções. E, novamente, manteve a convicção como um cavaleiro destemido suporta o peso da espada em punho mesmo já caído ao chão, ferido e a esperar o desfecho previsível de sua batalha.
A dignidade não é a conseqüência última e derradeira de um ator, mas, sim, a causalidade que motiva a sua execução. Augusto formulou essa frase precisamente no mesmo dia em que começou suas memórias. A decisão para fazer uma autobiografia foi grave e série: passaram-se meses até que chegasse a tomada da decisão. Desta vez, porém, Augusto hesitou: e se estivesse errado quando ao fato de ele ter razão sobre o mundo viver equivocado? Registraria o equívoco? E, caso sim, haveria tempo para reescrever sua história, isto é, a história de sua vida?
Augusto Fernandéz redigiu dez folhas corrigidas dez vezes cada; ao final delas, assegurou-se de que escrevera apenas a verdade motivada pelo hábito da reflexão. Nada demais, porém, neste começo de texto; cada um das páginas contava apenas uma ou outra relevância de sua vida, como data e local de nascimento e nome completo.
O texto parecia limpo e sincero. Ou melhor: preciso. Preciso como seu autor. Direto, objetivo e racional na mesma medida. Havia, no entanto, a hesitação sobre a questão existencial vivenciada por Augusto, e ele ainda não havia encontrado uma solução capaz de dar fim de uma vez por todas àquela ingenuidade filosófica.
Augusto decide passar ao capítulo de reflexões filosóficas; todas, sem exceção, eram despretensiosas, fundamentadas sobretudo na experiência e na reflexão daquele que as escrevia. Não havia, dessa forma, alguma novidade no campo das ciências do pensamento ou da linguagem; existiam asserções simples e desconexas porém sérias e precisas.
Após o termino de suas máximas e de seus interlúdios, Augusto retomou algumas questões jamais esquecidas. Seu trabalho era organizado, quotidiano, operário; sua dedicação consistiu em uma ferramenta tão elementar quanto sua inteligência nata.
Após 236 páginas de relatos e de narrativas, datadas de 708 dias de trabalho na contagem e recontagem de cada vírgula, mais um pequeno capítulo de máximas filosóficas que, em páginas, correspondiam a duas, mas que, em anos, se equivaliam a toda a vida de seu autor, acrescidas de uma nota introdutória cujo objetivo era esclarecer que o trabalho escrito era nada mais que um registro pessoal, Augusto Fernandéz encerrou suas memórias com a seguinte frase (que, nesse caso, era mais importante que o resto de sua obra):
Não creio que tenha acertado invariavelmente em todas as minhas conclusões, mas sei que invariavelmente cri no que conclui.
Augusto Fernandéz falece dois anos após seu manuscrito ter sido aprovado por uma editora modesta. Não viu nem veria repercussão alguma em torno de sua obra. Teria sentido, porém, uma leve indecisão sobre a última frase de seu texto se tivesse lido-a na prateleira onde repousava um único e tímido exemplar das Memórias de um homem sem valor.
segunda-feira, 20 de julho de 2009
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário