segunda-feira, 20 de julho de 2009

O Pampa

Augusto Fernandéz não era um homem de abandonar suas convicções; suas conclusões, no entanto, advinham de reflexões dialéticas tão profundas e metódicas que, para dizer uma simples opinião sobre a cor de uma roupa, Augusto precisava pensar, no mínimo, um par de horas. Isso fazia com que a maior parte das pessoas a sua volta desistissem de ouvir sua opinião; não por falta de curiosidade ou de interesse, mas por ausência de tempo e de paciência.

A conseqüência natural foi que Augusto isolou-se dos debates, das mesas de conversa, do palavreado e, por fim, das gentes. Augusto, por certo, refletira diversas vezes sobre o tema e concluíra, nada hesitante, que o mundo estava errado, ao invés de ele estar. Nesse caso, consta o pensamento de Augusto: ou eu estou ou o mundo está correto e, sendo que as pessoas sentem-se insatisfeitas com suas vidas e reclamam demasiado de seus problemas e de suas mazelas, o problema deveria estar com o mundo. Seria o mais lógico. O problema é que ele também sofria desses males. Visto que não era possível fugir de todo ao mundo, Augusto concluiu que essa era uma inevitável conseqüência de se viver.

Augusto, dessa forma, formulou sua tese.

Foi convidado, no entanto, devido a suas notáveis habilidades discursivas, para diversas oratórias nos meios sociais mais diversos; por certo, todas continham a mesma advertência: um pequeno porém mutável aviso de limitação do tempo ou do número de páginas, caso fosse entregue cópia escrita, da oratória de Augusto. Ao fim de três pares de horas, Augusto preferiu rejeitar todos os convites. Segundo ele, não há interesse legítimo em se defender um discurso que já tenha um ponto final antes mesmo da primeira letra.

Augusto, desajustado com o mundo, requestionou-se. Veja bem: suas decisões eram demoradas, porém não havia imutabilidade em suas idéias. Naturalmente, o tempo para questionar e requestionar algo era mais que o dobro da primeira tarefa, pois se necessita de uma síntese nova capaz de englobar as duas anteriores – ou de suplantá-las.

Concluiu, após duas semanas, que ele estava correto. Sempre esteve. Augusto Fernandéz não era um homem de abandonar suas convicções. E, novamente, manteve a convicção como um cavaleiro destemido suporta o peso da espada em punho mesmo já caído ao chão, ferido e a esperar o desfecho previsível de sua batalha.

A dignidade não é a conseqüência última e derradeira de um ator, mas, sim, a causalidade que motiva a sua execução. Augusto formulou essa frase precisamente no mesmo dia em que começou suas memórias. A decisão para fazer uma autobiografia foi grave e série: passaram-se meses até que chegasse a tomada da decisão. Desta vez, porém, Augusto hesitou: e se estivesse errado quando ao fato de ele ter razão sobre o mundo viver equivocado? Registraria o equívoco? E, caso sim, haveria tempo para reescrever sua história, isto é, a história de sua vida?

Augusto Fernandéz redigiu dez folhas corrigidas dez vezes cada; ao final delas, assegurou-se de que escrevera apenas a verdade motivada pelo hábito da reflexão. Nada demais, porém, neste começo de texto; cada um das páginas contava apenas uma ou outra relevância de sua vida, como data e local de nascimento e nome completo.

O texto parecia limpo e sincero. Ou melhor: preciso. Preciso como seu autor. Direto, objetivo e racional na mesma medida. Havia, no entanto, a hesitação sobre a questão existencial vivenciada por Augusto, e ele ainda não havia encontrado uma solução capaz de dar fim de uma vez por todas àquela ingenuidade filosófica.

Augusto decide passar ao capítulo de reflexões filosóficas; todas, sem exceção, eram despretensiosas, fundamentadas sobretudo na experiência e na reflexão daquele que as escrevia. Não havia, dessa forma, alguma novidade no campo das ciências do pensamento ou da linguagem; existiam asserções simples e desconexas porém sérias e precisas.

Após o termino de suas máximas e de seus interlúdios, Augusto retomou algumas questões jamais esquecidas. Seu trabalho era organizado, quotidiano, operário; sua dedicação consistiu em uma ferramenta tão elementar quanto sua inteligência nata.

Após 236 páginas de relatos e de narrativas, datadas de 708 dias de trabalho na contagem e recontagem de cada vírgula, mais um pequeno capítulo de máximas filosóficas que, em páginas, correspondiam a duas, mas que, em anos, se equivaliam a toda a vida de seu autor, acrescidas de uma nota introdutória cujo objetivo era esclarecer que o trabalho escrito era nada mais que um registro pessoal, Augusto Fernandéz encerrou suas memórias com a seguinte frase (que, nesse caso, era mais importante que o resto de sua obra):

Não creio que tenha acertado invariavelmente em todas as minhas conclusões, mas sei que invariavelmente cri no que conclui.

Augusto Fernandéz falece dois anos após seu manuscrito ter sido aprovado por uma editora modesta. Não viu nem veria repercussão alguma em torno de sua obra. Teria sentido, porém, uma leve indecisão sobre a última frase de seu texto se tivesse lido-a na prateleira onde repousava um único e tímido exemplar das Memórias de um homem sem valor.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Círculo vicioso

Pôr-do-sol fugitivo

A clamar pela noite demente

Que é uma estrela decadente

no meu céu de astros

decaídos

Semá-foro

Atropeladas
Árias
Ásperas
Ácidas

Várias e velhas
Velhaquices tirânicas

'Esse sujeito com esse
Jeito indecente
Indeciso'

E eu,
Conciso,
'Sei que não sou
Feito esse
Auto-indigente'

terça-feira, 7 de julho de 2009

Caráter ficcional criativo

Um amor passado
É algo que se esquece tão fácil
Quanto andar de bibicleta

A fosforência de um vagalume

Domar as dores
Ofício insalubre de um amestrador de amores

Das contrariedades metalinguísticas

A frase curta sempre é a mais longa
A mais demorada e comprida
Porque dela tudo parte
Porque nela tudo chega
Porque ela é particular e universal

Porque ela é reflexo e reflexiva
Porque é superficial
Porque é introspectiva



Aquilo que se diz com poucas palavras
Se joga no absoluto do universo
Eterno em tempo e espaço
No tamanho e no ritmo de um verso

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Há de ver cidades

Meu lar é um doce
Ninho de cobras


Cheio de traças
E ratos
Cheiro do ralo
De vômito
Do estômago defecado
Dos odores dissecados
Das dores do parto

Da puta que me pariu

Pro diabo que me carregue

E me leve
Pr’onde Judas perdeu as botas

Pr’onde Jesus perdeu o juízo

Sou um arranhar
Rastejante
Preso às entranhas rasgadas
À placenta úmida
Plácida
Monotonia colérica

Histérica história
Sem fundos de memória
Sem fundos de pensão
Sem fundos de verdade
Sem fundos de maldade
Sem fundos de fundar
E de foder
E de furar
As frouxas roupas do rei



Matar e temer
Atar-me em te ter
Meter e me ver a
Atear taras
Atrair iras
Trair atrozes
Travar atrasos
Tramar traições
Amar traidores
Tapar as estampas
As estopas


E fazer sopa
De dissabores

quarta-feira, 1 de julho de 2009

"Trocas" ou "Autoconfirmação"

- oi.

- oi!

- tudo bem?!

- ah, tudo! E tu?

- também. Vem sempre aqui?! Não, não era isso o que eu queria te dizer! Eu sempre tive recaídas com clichês, mas já estou em terapia!

- é mal de morte?

- todo o mal é mal de morte.

- por quê?

- eu não sei, mas eu queria dizer isso. Aliás, retomando, eu queria apenas conversar contigo. Desculpe, novamente, pelo clichesismo!

- conversar sobre...?

- ah, sobre o que tu gostaria?

- quem queria conversar era tu...

- apenas fiz uma pesquisa de opinião.

- e o resultado?

- ainda não foi divulgado. Posso te informar um outro dia.

- outro? Dia? Outro dia?


- se coincidentemente a gente se encontrar outro dia.

- por coincidência... entendo.

- mesmo?!

- não. Só queria dizer isso.

- essa fala era minha.

- já estava ensaiado, é?!

- de forma alguma. Claro que a gente sempre pensa no que vai falar, mas nunca se ensaia. Nem se improvisa. Engraçado: não temos a eficácia do que é ensaiado nem a criatividade do improviso. O que nos resta?

- eu gosto de restos.

- eu gosto de pratos cheios.

- somos almas gêmeas, então?!

- não, gêmeas seriam se gostássemos da mesma coisa, não é isso?!

- ah...

- tudo bem. Podemos ser almas gêmeas, não há problema por mim.

- estimulante: “não há problema”. Assim, fico louca. Aliás: melhor cantada que já levei. Por que não me fode agora mesmo?!?!?!?!

- desculpe...

- que moço bem educado. Conhece o filme A Má Educação?

- com o Gael?


- esse.

- já vi, mas não lembro muito bem... gosta de cinema?

- se não me engano, sim.

- como assim “se não me engano”?

- sou esquizofrênica.

- hmmmm...

- mentira, bobão. Era piada.

- ah, tá! Uma piada!

- não muito boa, pelo visto...

- se não me engano, sim.

- sim = não muito boa?

- sim = não muito boa.

- ah, a fala era minha.

- já tava ensaiado, é?!

- não. Sabe, nunca temos a precisão de uma peça ensaiada nem a espontaneidade de uma cena improvisada...

- o que te resta, então?

- pratos cheios, enquanto os outros comem restos...

- tu já viu o filme Antes do Amanhecer?

- o americano francês?

- não, o americano e a francesa.

- não, eu quis dizer o filme americano que parece cinema francês.

- ah, esse mesmo! Boa definição!

- sou boa em muitas coisas...

- quais outras?

- não to falando de sexo...

- nem eu!

- jura!


- claro que não! Eu sou um bom rapaz!

- e eu também.

- tu também é um bom rapaz?

- não, uma boa moça. Esperto.

- quem dera eu fosse... eu falo mal de toda essa gente pragmática, mas só posso dizer que eles são o que eu não conseguiria ser nem com todas as minhas forças...

- se fosse, eu pediria uma cerveja.

- por quê?

- me aproveitar da situação.

- esperta.

- obrigada.

- quer uma cerveja?

- não.

- tequila?

- pode ser.

- vamos lá, então.

- sabia.

- o quê?

- eu sabia... foi só dizer que eu pediria para um pragmático, que você já me ofereceu... é uma disputa?

- não, é boa educação.

- defensor da moralidade?

- só cometo pequenas infrações.

- conte.

- mostro.

- campeão, me fode de novo.

- desculpa... eu to me excedendo.

- e eu não to cedendo.

- eu to chato? Se eu tiver, me avisa.

- não, não tá... se tivesse, eu já teria ido ao banheiro...

- realmente muito esperta! Não se pode esperar nada de uma mulher, elas sempre nos enganam!

- pelo contrário: por isso mesmo se deve esperar TU-DO de uma mulher!

- eu tenho esperança.

- eu tenho expectativas.

- e o que te faria feliz?

- eu sou feliz.

- não fui isso que eu quis dizer, eu quis perguntar quais eram as expectativas...

- qualquer coisa bacana eu topo.

- mesmo?

- se me agradar, sim.

- legal, gosto de mulheres com atitude.

- realmente, faça a terapia...

- não terei outra recaída! Juro!

- falsas promessas! Os homens são os mesmos! Prometem o mundo em troca de uma trepada. E depois dormem.

- nem todos os homens são assim.

- é, alguns não dormem.

- eles sempre são canalhas?

- só quando a gente deixa...

- e quando vocês deixam?

- quando só queremos uma trepada. Aí, prometemos o mundo. E depois, lembramos de um compromisso.

- quanta maldade!

- por isso vocês nos amam.

- por isso.

- quer experimentar minhas malícias, jovem?

- adoraria...

- talvez eu pense no assunto. Qual seu nome?

- e de que isso importa?!?!?!

- eu preciso saber...

- por quê?!

- porque eu quero saber.

- mas sei lá, tu acha que a gente pertence a um nome? Qual é a necessidade disso?

- tu pode me dizer teu nome?

- não me respondeu...

- eu acho que a gente tem um nome e acho que tu pode muito bem dizer qual é o teu. É tão difícil, campeão?

- não...

- então...

- Gabriel.

- Juliana. Prazer!

- Prazer! Depois de meia hora...

- antes tarde do que nunca.

- você também faz terapia?!

- engraçadinho...

- você riu...

- por isso te chamei de engraçadinho.

- mas foi irônico!

- foi um elogio!

- obrigado! Você também!

- como funciona a terapia?

- muda. Depende do dia.
- e hoje, como é?

- hoje é procurar uma pessoa mais clichê do que eu para que eu aprenda a evitar certas coisas...

- já achou...?!!?

- não...

- que bom.

- essas coisas sempre são clichês. Isso de relacionamento... quem não é brega quando ama?

- lá no fundo, talvez sim... mas sou muito racional e equilibrada, não me leve por impulsos.

- eu gosto de coisas leves e fluidas.

- eu gosto daquilo que é pesado, denso, fundo...

- eu acho que te procurei por isso.

- por... ?

- uma vontade de sentir essas emoções fortes e avassaladoras...

- dá pra notar?

- sou ótimo observador.

- e fala demais também!

- é legal conversar...

- ainda mais com esse silêncio todo!

- não podia perder a oportunidade!

- vocês nunca perdem!

- eu nunca perco.

- tu. Nunca vai perder.

- eu sempre quero tudo e mais.

- faminto!

- por isso gosto de pratos cheios!

- por isso só te dão os restos!

- eu não mereço mais que?

- que restos?! Depende. Acho que os restos são melhores, já disse.

- sempre já se disse o que dizemos.

- então qual foi a primeira frase de todas?

- a primeira frase eu não sei, só sei a primeira mentira.

- qual foi?

- “isso não vai se repetir!”

- devem ter outras...

- “confia em mim!”. “é seguro, eu garanto!”.

- “eu te amo!”.

- mas a gente mal se conhece...

- não, essa era uma das mentiras.

- ah, tá.

- e se eu te amasse, mesmo, seria porque mal te conheço. Assumo meu pessimismo: sempre amamos uma projeção do nosso ego.

- narcisismo?

- claro. Eu assumo.

- te ama declaradamente!

- sim, e afirmo. Acho hipócrita esse papo bobo e chato de “ah, não me sinto bem comigo mesmo”. Quem se acha inferior, ainda se acha superior na inferioridade...

- também leio Nietzsche, mas não faço plágio...

- eu não faço plágio!

- não, capaz...!

- é que nem percebi que era uma citação...

- a gente vive citando coisas e não percebe isso.

- sabe?

- quê?

- aquilo que a gente diz, sempre já foi dito por alguém...

- é mesmo?!

- é...

- e então qual seria a primeira frase do mundo?

- eu não sei qual foi a primeira frase, mas sei quem foi a primeira pessoa a reclamar.

- e quem foi?

- Eva.

- do que ela reclamou?

- que o adão não dava mais bola pra ela...

- mas só tinham os dois no mundo.

- por isso mesmo.

- como assim?

- ela é uma mulher!

- e... ?!?!

- só deveria ter ela no mundo. Aliás, o mundo deveria ser ela.

- esse deve ser o pecado original, porque até hoje vocês são assim...

- é que vocês não nos amam o bastante...

- é que isso não é amor, é dependência emocional.

- por isso são traídos.

- se nós traímos, somos canhalhas. Se vocês traem, é um ato de justiça?!

- reducionismo. Não há traição. Somos traidores quando somos monogâmicos, porque traímos a nossa natureza.

- tu não tem vontade de ter alguém contigo?

- eu tenho vontade de ter todos comigo.

- e por que um não basta?

- e por que um bastaria? E mais, não é questão de bastar...

- e do que é?

- é questão de gosto. De bom gosto.

- eu concordo contigo.

- pensei que discordava...

- só queria saber teus argumentos...

- faz sentido.

- só faria se fosse ficção!

- por quê?!

- só a ficção faz sentido... a realidade é caótica.

- não tenha mais recaídas, por favor. E se cuide.

- me cuidarei. E farei terapia. Até.

- Até, Rafael.