terça-feira, 30 de junho de 2009

Ossos do ofício

Não escrevo para meus leitores

Nem mesmo para mim

Escrevo.

Porque escrever se faz

E se faz necessário.

Porque cravo as unhas na carne

Porque grito e silencio e reinvento

E a palavra é meu ente sagrado

Escrevo sem arrependimento:


Escrevo porque não sou escravo

Imóvel

É tudo tão ligeiro, tão rápido, tão efêmero: está tudo na superfície lisa.


E cada coisa lenta, devagar, que matura em minhas mãos
Transforma-se em apreço e apreciação
em predicados e sujeitos
mas logo o presente já
é pretérito imperfeito


Parece tudo ser lembrança
Perco a esperança em qualquer novidade

Só que nada é igual
E nada é novo

É tudo um retorno
Com retoques
Com retalhos

Com contornos

É tudo uma mesma coisa
Que não é a mesma coisa
E nem mesmo cada coisa

A ausência de uma dialética negativa
De um nada absoluto
De um vazio sem linguagens
Sem recordações

De um prazer negativo
Inverso
De uma transliteração
Dos signos e dos significados

A ausência de estar ausente
De se ver de repente
A cantar um refrão nunca cantado
De uma canção nunca composta

Só que tudo é aposta
De uma cantor desencantado

Piedade

E eu
Guerreiro
Grito
Mito
Místico

E eu
Guerra
Luta
Sem lutos
Sem luares
Só luz
Só altares

Divindade
Dividida
entre dizeres
e distintos prazeres

eu
a morte
a vida
a força

agora enforcado
agora enfraquecido
ora desfalecido
ora escravo [!]

A primeira mentira

Os antônimos deveriam ser sinônimos de tantas coisas: imagine uma língua em que o significado seja tão próprio que não haja recurso para se fazer comparação. Imagine pensar que grande e enorme são termos ambíguos. Imagine pensar um verbo sem ação e um sujeito de quem não se diz coisa alguma.

Imagine uma linguagem em que a palavra seja metáfora, e não miragem.

Esperança

Aquela criança brilhou sob a neblina lunar. Era um anjo-caído. Arrependido.

Decepção

O mundo quer ser surpreendido sem ter que se surpreender.

Ficções

Não quero sofrimentos, sentimentos, desabafos, relatos, enfim, linguagem morta, torta, podre, a se esvair pelo canto da boca, pelo lado da porta.

Não quero confissões nem confessionários. Quero idolatrar qualquer besteira boba que suja um pouco a casa, que fujo um pouco dos retalhos rotos das mãos de minha mãe.


Dizer que se sente, se sofre, se entende, ah, tudo isso!, ah, é tudo indecisão! Estreita, lisa, fina, reta. É tudo prelúdio lúdico dos dias que virão, dos dias que verão.

Cuspido esse cupido escarrado e mal comido! Vá amar a minha porra na tua boca, Demônios! Vá amar teu cu arrebentado!

Vá amar sopa de letrinhas, feitas com varinha de condão. Vá amar o tecido de algodão que te cobre as desavergonhadas protuberâncias da puberdade. Vá amar tua idade que te esconde do relógio.

E deixe que tua leveza seja a correnteza dos maus momentos. E deixe que tua alegria vire tristeza com o passar dos tempos. Com o passar das estações e das estradas, verás os passos ultrapassados que te fazem tão quietinho, tão cretino, tão credor!

Não há espaço para o amor. Tome posse dos pedaços de vida, querida, bem-querer, tome poças de loucura e de enternecer.

Não há mais espaço para o amor: o que existe já nos basta. Não há mais tempo para o amor. E nenhuma outra farsa.

Fortaleza

Sempre fomos fortes em mentiras. Sempre gostamos de contar e ouvir mentiras. Não é má índole: a fantasia nos parece melhor do que a realidade, apenas isso.

A mulher que acredita nas mentiras deslavadas do marido e o homem que crê nas mentiras desalmadas das mulheres.


Sejamos sinceros: Saramago tinha razão ao dizer que não era pessimista – o mundo é que era péssimo.

Voltemos às mentiras. Às atuações. Falsidade qual nada! Falsidade é ser bom samaritano em meio a essa alcatéia faminta e feroz! Falsidade é esconder a ereção incontrolável na calça já desabotoada, desbotada de tantas trepadas repetidas – répteis!

Não somos maus, amigo, não somos. Somos imaginativos. Uma boa fodida e uma história inventada: é o que somos e seremos. Porque é a essência do ser – do dever-ser!

Quantas mentiras deslavadas! E as piores são as travestidas de verdades! Buscam a pureza, o ideal, a franqueza: pois são francas fraquezas! Destemíveis e provisórias!

Falam de enredos não tramados, de dramas superados, de se crer no cerne da ficção: na carne, creio, nas palavras, não.

Até quando essa causa perdida de se perder sem causa? Até quando se entranhar dessa leveza tão auto-sustentável? É amável teu amor, mas tua moral é mal irremediável!

Se te acusarem de hipocrisia, amigo, lembra-te de que a acusação não passa de auto-defesa em todas as vezes – atirar pratos sujos sobre a mesa e pedir manjar dos deuses!

As primeiras considerações sobre o quotidiano

Albert Camus afirmou que a única pergunta filosófica de real relevância é se a vida vale ou não vale a pena ser vivida. Embora possa parecer reducionismo, ainda mais em se tratando de discurso existencialista, essa questão parece dizer, na verdade, “há algo além da própria existência?”.

Dessa maneira, percebe-se facilmente o inverso da primeira impressão: ao invés de um reducionismo, essa reflexão filosófica consiste justamente em uma maximização da importância da existência. Isto é: há a existência.

Em uma perspectiva dialógica, pode-se, também, buscar uma aproximação entre esse existencialismo com a fragmentação da razão na obra de Friedrich Nietzsche.

Para o filósofo alemão, a pergunta seria “há algo além do sujeito e de sua percepção?”. Schopenhauer, ao tentar responder essa mesma questão, afirmou que, exceto tempo e espaço, todo o conhecimento é fruto de uma representação do mundo. Assim, a cognoscibilidade seria um elemento inexoravelmente subjetivo.

Em síntese, leitor, temos os seguintes problemas: “há algo além da existência?”, “há realidade objetiva cognoscível?”, “há universalização dos conceitos” e “há diferença?”.

Em síntese, leitor, temos sequencialmente as seguintes hipóteses: “há algo relativo à existência”, “há objeto cognoscível”, “há universo e há conceito” e “há repetição e semelhança”.


Proponho discutirmos tais questões a fim de legitimar/problematizar concepções e hipóteses.

Um abraço!