domingo, 20 de dezembro de 2009

A árdua disparidade de ser escritor em um domingo à tarde
Saber o sol a brilhar fora das quatro paredes
Das janelas fechadas
Da fachada de ser feliz

A dura dicotomia de ser escritor em uma noite fria
E saber o vento a cortar a pele fora dos casacos abotoados
E ver os botões de flores fluorescentes caírem desabrochados
Rolarem pelo chão cinza

A fácil monotonia entediante de se escrever em um livro
Velho
Esquecido na estante

Esperar
Pra ter algo
Que deva ser escrito
E saber que as histórias
São ficções
E por isso a realidade não é romance

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

O que é a invasão
senão a vasão dos sentimentos
senão a visão dos detalhes
a inversão dos arrependimentos
e o sedimento dos retalhos

atolados em tua carne
prendidos em tua boca
alojados no teu cerne
presos sob tua força

e eu sei que hei de contar-te
as novidades do mundo das artes
as raridades do mundos dos mortos
e tudo que ainda posso
hei de fazer
hei de poder
hei de amar lutar morrer

porque sou
um ser
porque sou
eu
porque sou
e sei o porquê

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

por vezes as veredas são verdades.
mesmo que vedadas ou veladas,
porque são vorazes
e velozes;

são vestígios de vestes, de vestidos
tecidos em veludo.
são vertigens
viagens
vôos;

voz presa que clama pelo grito;
voz tensa que grita ao infinito;
o ver e o verificar submissos à vingança
à ganância de vingar!

E o vermelho-sangue derrama-se feito vinho tinto
a fugir pela garrafa partida em muitas partes;

Vermelho-morte
Vermute morno
Vontade pela metade
porém transbordante
de desejos fugazes,
je t'a dit
il a être seulement une fête
un nuit

je m'a dit
j'ai cru
mais je n'ai vu pas

je suis la
e je regarde tes yeux
e je sais qui
c'est tout qui je peux regarder
Eu te falei dos meus sonhos
eu te contei a minha história
eu não escondi
o que havia para esconder
nem o que havia para mentir
eu não menti


e você só lembra da minha camiseta
porque nela leu je pense donc je suis

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Paris não é uma festa

Ethan desceu do trem. Olhou a cidade. Respirou a cidade. Tocou a cidade. Beijou, sentiu, amou Paris. Naquelas ruas, Ethan passou dias, noites, apuros. Ethan foi ao café L’étranger, lugar em que sempre foi. Lá, encontrou a nostalgia e as surpresas: viu as mesmas cadeiras baixas, os mesmos quadros desbotados, as mesmas garrafas vazias utilizada na decoração. Viu, no entanto, um olhar diferente de todos os olhares já vistos no café. Chamava-se Julie. Era francesa, estatura média, cabelos castanhos desenrolados sobre os ombros; Julie era uma mulher sedutora e discreta. Julie usava uma camisa abotoada até o alto do pescoço, onde surgia um lenço luminoso. Em seu pulso, havia uma pequena tatuagem com a frase “Je pense donc je suis”; Ethan perguntou, discretamente, se Julie gostava de René Descartes. Julie respondeu que gostava da frase, não do autor. Ethan perguntou se ela não gostava do autor. Julie respondeu que, se não gostar significa simplesmente ser indiferente, sem amar nem odiar, então, sim, mas, se não gostar significasse detestar, então, não. Ethan ficou assustado com uma resposta tão complexa para uma pergunta em que se diz “sim” ou “não”, geralmente. Ethan pediu um café. Julie serviu-lhe. Ethan disse que, apesar do seu francês ruim, gostava das ruas de Paris. Julie disse-lhe que gostava de peixes. Ethan concordou. Ethan disse que o oceano era sua paixão. Julie disse-lhe preferir a solidez de um aquário. Ambos os personagens perceberam, a esta altura da narrativa, que havia uma atrativa e irreparável ligação entre as paixões e os problemas de sua vida. Julie era alguém que precisava de um mundo atrás de um balcão: sólido, de onde tudo se vê, de onde se esperam os pedidos e de onde se sonham os sonhos e se sonham as realidades. Ethan não conseguiu jamais prender-se a um lugar. Sua vida era um eterno partir por não saber permanecer. Ethan sabia que viajava demais por não ter um destino. Julie prendia águas, peixes e sonhos; Ethan jamais os possuiu.

Ethan pagou o café e disse au revoir.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

TODASASFACESESFACELADASFATIGADAS
TODASASVOZESSEMASASSEMGRITOSSEMNADA
TUDOÉCAOSÉDESORDEMÉALEGORIAALEATÓRIA
NADASOMOSNADA
TODOSMORTOSDEUMAVEZSÓ
UMSUICÍDIOSEMPRECEDENTESNEMDESCENDENTES
NAHISTÓRIADOREBANHODERABOPRESO
NÃOHÁSENTIDONÃOHÁGRAMÁTICASEQUERÉLINGUAGEM
ESQUEÇA-MEESQUEÇA-TEESQUEÇA>DESAPAREÇADESTATREVAQUETETRAVA
'CUSPANESSABOCAQUETEBEIJA'
Sigo minha trilha transversal
Em
Reveses
Eu
reverso
visceral
retrocesso
(in)verso

Às vezes
Sem temer
Nem tremor

Por ora
Partido
Entre nada e agora

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Falam-se de coisas. Falam-se de cores. Faltam acordes. Falhos acordeões. Falsos artistas. Hábeis artesãos. Fala-se de mim. Falácias minhas. Flores para ti. Fossas para mim. Facas encravadas na cara esfaqueada. O cravo a suspirar a manhã. Florescida. No jardim. De jasmins. De violetas. Violentas. Hedonistas. Hediondas. Passam os vizinhos. Passarinhos. Passos lentos. Devagar a vagar. Sem vaga, sem tralhas. Sem trilhos. Nem ladrilhos. Ou ladrões. Latidos. De um cão distante. Uivante. Temido. Teimoso. No cio ocioso colosso. Dizem por aí. É o que andam dizendo. E eu ouvi. E não vou fingir que não. Que não sei fingir. Que é franco. Se é fraco. Que é forte. Se é fugaz. Se é fulminante. Ataque cardíaco. Taquicardia. Trâmites. Ardiloso. Calado. Falam-se de coisas. Falamos de cores. Comemos flores. Falhos acordes. Faltam acordeões. Sem artesões. Nem abóbadas. Hábeas corpus. Fala-se de ti. Falácias tuas. As minhas flores. As tuas fossas. As faces afagadas por afagos afetuosos. A rosa a murchar na noite. Putrefação. Na floresta. Florida. De feras. de plantas selvagens. Sentimentais. Sensíveis. Passamos pelos vizinhos. Passamos rápidos. Sem fazer as pazes. Sem mexer os pés. Gatos. Gritos. Tapas. Tiros. No ritmo irreversível da rotina. Retinas eriçadas. Nubladas. É sincero e sozinho. É desacelerado. É violado. Vilão. Vil.

Falaram de coisas. Falarem de cores.

Soneto reto

Minhas conclusões não concluem coisa alguma

Nem estou convicto de minhas convicções

Só sei caminhar se for para parte nenhuma

Há malícias em todas as minhas boas intenções

Minha vida, uma taça de champanhe sem espuma

Um professor que não aprende suas lições

E que não ensina algo as suas tolas alunas

Sou morto de fome que vomita frente às refeições

Existo porque da existência não parti

E se eu aqui estou, estou por inaptidão

Porque nem espero o que ainda possa vir

Eu só temo desembarcar duma desilusão

Porque disso já não é possível se iludir

Na companhia da minha triste solidão

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

(re)lapsos de memória

Os prazeres vencem a contenção
mas o orgulho esquece facilmente
o que para o orgulho não importa
e para a reputação é inconveniente.


___________________________

Eu não vou fazer um post scriptum, mas o que farei é exatemente um. Esta micro-poesia foi concebida ao ler um texto intitulado Corporais - Criação Pictórica e é um plagio descarado de uma máxima de Friedrich Nietzsche. Se você gostou do texto, ou é um nietzscheano, pelo menos em parte, ou nem sabe o que está dizendo e lendo. Se você é um leitor ignorante, não perca tempo lendo blogs de escritores pouco afamados e menos ainda talentosos.
Tua timidez de tintas e taninos
travos dissabores entrevistos
entre as vistas
o vislumbre
das entrelinhas
entre as linhas do horizonte
e do sentido
já não mais sentido
já não mais sensível;

teu toque e traços finos
entornados sobre o tórax
teus atrasos trôpegos
sem fôlegos
justificados em teu sotaque
em tua sordidez
em tuas taras trânticas;

caras de inocente
finge malevolente
esse menino ligeiro
passa o tempo inteiro
a fingir-se indulgente
a manter luto sorridente

sobre um chão de sal que pisa
de valsa que se dança de pés descalços
de marcha fúnebre e funeral marchante
grita o defunto ao mundo: sentirei saudades

mas o menino flerta com a filha do cadáver
e inda pensa por um instante como são
irrelevantes (essas) questões de linguagem

Retrato


Tua pose de senhora

Teu olhar de menina

Me mata e alucina

Me faz perder a hora

E antes de ir embora

Tu, audaz assassina,

Me fazes essa chacina

Prazer que tu adoras

Me olhas pecaminosa

E desvias o olhar em frente

Miras aquela gente mimosa

E me tornas indiferente

Quando te despedes cerimoniosa

Com tuas despedidas – contidas –

[e indecentes

Concretude

Minhas conclusões não concluem coisa alguma

Nem estou convicto de minhas convicções

Só sei caminhar se for para parte nenhuma

Há malícias em todas as minhas boas intenções

Minha vida, uma taça de champanhe sem espuma

Um professor que não aprende suas lições

E que não ensina algo as suas tolas alunas

Sou morto de fome que vomita frente às refeições

Existo porque da existência não parti

E se eu aqui estou, estou por inaptidão

Porque nem espero o que ainda possa vir

Eu só temo desembarcar duma desilusão

Porque disso já não é possível se iludir

Na companhia da minha triste solidão

(d)as dores do mundo

Não há o que se buscar na vida. A vida é simplesmente um suceder de fatos distantes, aleatórios, estéreis. A vida nada tem de belo, de complexo ou sequer mesmo de sentido.

Somos uma composição de pequenos fatores; de certa forma, somos reduzidos a átomos, que nada têm de humanos. Somos composto por coisas que não são aquilo que somos. Somos outros. Estranhos.

E o tempo, tão incompreensível? Risível nossa tentativa de entendê-lo, se a cada dia que se nos apresenta já somos o passado do que já foi e já não é nem será. Que ser estranho é esse que nos consome?! Não podemos fugir de nós mesmos. Não podemos ter outra consciência que não a nossa. Nem outro andar, nem outra voz. Não somos nada que não seja nós mesmos, e, mesmo assim, nós mesmos não somos nós.

Em um formigueiro com seis bilhões de formigas, a morte de uma seria insignificante. Quantas pessoas morrem em um dia e nem sabemos que elas nasceram, menos ainda que morreram? Quantas pessoas estão a um passo, a um sopro da morte neste exato instante? Quantas pessoas passam por mim e eu não sei de seus desejos, de seus problemas, de suas dúvidas, de suas taras ou mesmo de suas futilidades!

Por que haveria de ser a minha vida mais importante do que a de qualquer uma dessas formigas? E o bom gosto, e a are, e a inteligência? Do que valem? Do que vale ser menino prodígio nesse antro de velhos atrasados, reumáticos e frouxos?

Para que hei de me perguntar o que a moça da esquina sente por mim se ela sequer consegue compreender uma poesia, que dirá, então, de um amor idealizado em passos sobre o asfalto molhado? Para que terei que deixar meus escritos se meus leitores não sabem ler?

Por mais elevada que seja minha vida, e ela não é, a vulgaridade do mundo é tamanha que eu só poderia voar nos meus sonhos, preso no silêncio vazio do meu quarto. Os superiores são condenados ao silêncio e ao vazio; apenas no isolamento podem manter-se superiores.

Toda vez que uma pessoa de gosto cultivado aproxima-se de uma de gosto inferior, prevalece a tolerância da primeira em relação à segunda. Sente-se pena da mediocridade: por isso é tolerada. E por isso persiste em existir.

Procurar profundidade em um organismo composto de carne e osso é uma perda de tempo. Somos um instinto egoísta e imediato.

Toda a humanidade está condenada a si mesma.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Retinas

Eu vejo em cada novo rosto que se me apresenta um outro rosto que já vi dobrar a esquina, um transfigurar sombrio de semblantes e de dizeres, um sem-fim de finos gestos e de faces flácidas.

A cada página virada, o livro pestaneja e retrocede um velho enredo outrora narrado por outros narradores em outras narrativas.

Tudo é uma recombinação desajustada de fatores oblíquos, perenes e voláteis. Não há identidade nem permanência; a velocidade de cada metáfora tamanha é que cada sentido só existe enquanto concebido, pois, se verbalizado, já torna a ser um outro ser que se distingue do primeiro.

Assim, passam-se anos e gerações; vejo velhos sonhos vestidos de remendos e retalhos, de desilusões descoloridas, desbotadas, turvas e foscas.

Os narizes são tão tortos, e as testas, tão rígidas. Que corpo estéril em que se coíbe qualquer comportamento vivo, pois é resto roto, tracejado de compartimentos soltos, vazios, esguios, lânguidos, de pedaços mortos.

Amorfos metamórficos – matéria artificial.

domingo, 20 de setembro de 2009

Não sabes ir para não voltar
Nem queres ficar de uma vez
Tudo isso que não vês
São faces
São laços
do Luar

Todas as que não são tu
Todas as que tu não és
São uma legião de leigas
Sem legado nem elegias
Leite derramado e o pranto
a misturar-se com o líquido
embalsamado pelo chão
corrido
colhido
com colheres
de sopa
de sopro
de vento
que se perde
no tempo
que é etéreo
eterno
tenro

Todos os passos que não deste
Todas as palavras que não disseste
São meus saltos em tua direção
São meus avanços inconsequentes
dementes
doentes de tua perdição
Sob tuas faces
elevo as minhas profecias
em teu ouvido recito poesias
Sobre todas as coisas que fazes;

Solto solares sonetos
no ar
no vidro embaçado
com teu nome abençoado
escrito
com o meu ao lado
comigo
a teus pés
atado
alucinado

Lúcifer
Feroz
Lúcido
Fera
Escondida sob a fresta
rastejante
bucólica
eufórica
festa
de selvagerias

e tu, invasão,
é minha ingratidão
e minhas melancolias

sábado, 19 de setembro de 2009

Somos seres humanos
e nisso não há virtude
nem vício

porque disso não resulta muito
nem pouco
nem a loucura do são
nem a sanidade do louco

Somos apenas membros
desmembrados
em membranas rasas
ralas
oblíquas
desfalecidas
caídas sobre as máscaras
que vestimos
do avesso


mentir, matar, roubar, enganar
são tanto formas de prazer
quanto tendências naturais do afeto
Numa paixão,

há alguém que ama
que luta
se entrega
em quiméricas trevas
em tolas disputas;

e há alguém amado
o ser amado
que é o ser que
alguém que ama,
ama
inconjurado
das volúpias da cama;

Numa paixão,

alguém faz o amor nascer,
viver,
renascer,

e o outro cria a dificuldade
o obstáculo
o conflito
o atrito entre o forte e o fraco,

há a elevação do ser que faz o amor surgir
pois é da sua conquista que o amor vive

e há a elevação do ser que deixa o amor acontecer
pois sempre será lembrado e querido
e deixará de coração partido
o amante que fez o amor viver

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Não quero te ter tão presa
com tanta pressa
feito posse

Mas já não posso te ver tão livre
e me entreter em ser
apenas aposta

domingo, 6 de setembro de 2009

achados e perdidos

Eu vou para um lugar em que tudo possa acontecer;
o óbvio
o inusitado
o já esperado
o nada
o coisa nenhuma
o qualquer
o tanto faz
o tudo feito

um lugar freqüentado pelas mesmas pessoas
num lugar em que as pessoas nunca são as mesmas

a mesma música
a mesma maluquice

sempre uma nova musa
sempre uma nova imensidão

eu quero ir para um lugar em que nada seja permitido
que tudo seja proibido
e todos quebrem as regras

até mesmo se não quebrarem
barreiras
pistas
filas
garrafas
farsas

eu quero um lugar em que a verdade seja máscara
seja metáfora
seja imoral
seja uma vontade morta
de não ser morto
de não ser morno
de ser não mais
do que aquilo que se quer ser

eu quero ir para um lugar
em que nunca sejamos completos e realizados
que sempre falte algo que já é passado
ou que nunca venha algo pelo qual esperamos


eu quero ir e me perder
sem ter possibilidade de volta
de revoltas
de receios

um lugar em que nada seja medo
em que tudo seja um furação
um tornado
isolado do resto do mundo
que só seria resto
que só seriam rastros
de pedaços
sem rosto


eu quero estar nesse lugar
que é só luar
que é só luz
que sempre é madrugada cheia

que sempre é enluarada varanda
donde me espiam olhos sacanas


Eu quero
e eu vejo você comigo

a dançar
o hino sincero
dos amores insandecidos

Ravena

Ravena,


teu jeito heavy
teu toque heaven

são raros
são risos
de empatia
sem empáfia
sem patifarias

travessuras solidárias
em comunhão com o abraço
em brasas
em braços bravos

solitárias notas soltas
sobre a solidão
sobre a solidez
sobre a sordidez
sobre a surdez
a insensatez
a insensibilidade

e a tua habilidade sem par
sem páreo
sem pátria
de amar
de encantar
de compartilhar
trilhos
tiras
taras
tosses
trâmites
intransigentes
intermitentes

são quiméricas métricas
de poesia inverbalizada

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Se há uma asserção cujo significado não remeta a um objeto denotado, como o atual rei da frança -exemplo de Russel -, deve-se abdicar a tese de que a linguagem é uma representação da realidade?

terça-feira, 4 de agosto de 2009

A Deus

adeus.

Ditadura


O rapaz desesperado

Em meio ao pranto

Dizia aos berros

À sua namorada

Que estava cansado de ressacas

De meios e de termos

De malhas e de ternos

Queira tudo inteiro

Erros

E acertos

E pedia

Impelido

Pelo despeito

Sem festa

Nem enfeite

A hora é esta:

Me ame ou me deixe

Auto-ajuda barata e inútil

Só se diz talvez quando se tem convicção daquilo que se fala.

Os ditados populares são pérolas da sabedoria. O problema é que eu sempre penso que eles diziam outra coisa, e a gente é que não sacou.

A ironia é uma arma dos fortes, e não dos fracos, M. Sartre. O que se pode fazer se a vida também é irônica?

Se a seleção natural existe de fato, eu me pergunto que merdas não são os mais fracos. Se a nossa força é essa, já estamos derrotados – perdemos para nossa burrice.

Todo mundo anseia oportunidades convenientes de se fazerem boas perguntas, mas poucos destes preocupam-se com as boas respostas.

Uma pessoa velha sempre tem muito a ensinar. Ser chato, pessimista e mau-humorado é uma conseqüência natural de ser humano.

Uma das coisas mais repetidas da minha geração é esta famigerada e falha história de querer ser diferente. São muitas as tribos e as pessoas que se consideram diferentes de todo o resto. Começo a desconfiar que se considerar normal é uma característica muito peculiar.

Se todas as minorias sociais ascenderem, ser um homem branco e heterossexual vai ser difícil. Ainda mais se não for esquerdista.

Eu não entendo essa idéia de “cada caso é um caso”. Para quantos casos vale essa merda de julgamento?!

A humanidade produz boas idéias, mas, no fundo, as grandes besteiras é que compõem a “humanidade”. Deus, por exemplo, é a maior delas. Mas, claro, sempre tem mais uma idiotice a ser dita. Não há um limite claro para o nível de baboseira que uma pessoa pode dizer ao longo de setenta, oitenta anos. Eu, pra citar alguém, devo estar falando uma agora. Mas cansei dessa viadice de se respeitar a opinião de cada um. Não sou obrigado a tolerar atentados ao intelecto, como o vegetarianismo, a atual democracia, o bom senso e o senso comum.

Não existem tempos bons ou maus. Os adjetivos são particulares aos critérios de valor.

As mulheres gostosas esqueceram que burrice é broxante. Por sua vez, as inteligentes não lembraram que ninguém se excita lendo Kant.

Os melhores amigos não são aqueles que estão conosco nos maus momentos, mas, sim, aqueles que não pedem favores excessivos nos bons.

Existe uma enorme diferença entre ser sociável e ser babaca. O problema é que muitas pessoas ou não percebem isso, ou fingem não perceber. Um sujeito simpático e bem educado tende a ser tratado como um babaca a quem se explora e a ser lembrado apenas quando seus favores e habilidades fazem falta.

Uma mulher que não quer ser tratada como um objeto não pode, igualmente, se comportar como um.

Sempre que alguém me pergunta “para que serve filosofia/arte?”, eu minto.

Quem enxerga um problema tem a responsabilidade de procurar uma solução. Não se pode confiar aos outros uma tarefa individual. Se eu dependesse da boa vontade do mundo, jamais teria aquilo que todos desejam.

A moralidade, nos meus tolos tempos, divide-se em um discurso e uma prática. Um, por excelência, opõe-se ao outro.

O pensamento popular está recheado de auto-contradições, de raciocínios vagos, superficiais e tolos; quando estou otimista, penso que as pessoas mentem umas para as outras a fim de obterem vantagem em relação às demais. É a única forma de se ver inteligência no meio de tanta asneira.

A modéstia é a melhor forma de fazer uma pessoa competentíssima e uma inútil parecerem estar no mesmo nível. Aquele que é modesto compactua com isso. Aquele que é elevado e modesto é, a rigor, um suicida.

Não se deve ajudar alguém que não mereça ajuda. Levar nas costas um boi é um peso que pode fazer você fraquejar.

Acabar com os preconceitos é algo mítico. A menos que se eliminem todas as classificações coletivas possíveis, o que me parece improvável, sempre haverá um grupo, uma classe, uma tribo que esteja em desvantagem. E esta sempre será vista com olhos de desconfiança.

O velho metafísico fala do dever do ser. O ser deve ser aquilo que ele é, e não aquilo que ele deve ser segundo a velha metafísica. A partir do momento que se concebe um fenômeno, deve-se admitir também suas auto-contradições, falhas, inconsistências e, sobretudo, arbitrariedades.


Para se defender uma tese, o único erro imperdoável é não colocá-la à prova. Qualquer cientista que parta do princípio de que sua hipótese está correta, não faz ciência - e, conseqüentemente, não é um "...".

segunda-feira, 20 de julho de 2009

O Pampa

Augusto Fernandéz não era um homem de abandonar suas convicções; suas conclusões, no entanto, advinham de reflexões dialéticas tão profundas e metódicas que, para dizer uma simples opinião sobre a cor de uma roupa, Augusto precisava pensar, no mínimo, um par de horas. Isso fazia com que a maior parte das pessoas a sua volta desistissem de ouvir sua opinião; não por falta de curiosidade ou de interesse, mas por ausência de tempo e de paciência.

A conseqüência natural foi que Augusto isolou-se dos debates, das mesas de conversa, do palavreado e, por fim, das gentes. Augusto, por certo, refletira diversas vezes sobre o tema e concluíra, nada hesitante, que o mundo estava errado, ao invés de ele estar. Nesse caso, consta o pensamento de Augusto: ou eu estou ou o mundo está correto e, sendo que as pessoas sentem-se insatisfeitas com suas vidas e reclamam demasiado de seus problemas e de suas mazelas, o problema deveria estar com o mundo. Seria o mais lógico. O problema é que ele também sofria desses males. Visto que não era possível fugir de todo ao mundo, Augusto concluiu que essa era uma inevitável conseqüência de se viver.

Augusto, dessa forma, formulou sua tese.

Foi convidado, no entanto, devido a suas notáveis habilidades discursivas, para diversas oratórias nos meios sociais mais diversos; por certo, todas continham a mesma advertência: um pequeno porém mutável aviso de limitação do tempo ou do número de páginas, caso fosse entregue cópia escrita, da oratória de Augusto. Ao fim de três pares de horas, Augusto preferiu rejeitar todos os convites. Segundo ele, não há interesse legítimo em se defender um discurso que já tenha um ponto final antes mesmo da primeira letra.

Augusto, desajustado com o mundo, requestionou-se. Veja bem: suas decisões eram demoradas, porém não havia imutabilidade em suas idéias. Naturalmente, o tempo para questionar e requestionar algo era mais que o dobro da primeira tarefa, pois se necessita de uma síntese nova capaz de englobar as duas anteriores – ou de suplantá-las.

Concluiu, após duas semanas, que ele estava correto. Sempre esteve. Augusto Fernandéz não era um homem de abandonar suas convicções. E, novamente, manteve a convicção como um cavaleiro destemido suporta o peso da espada em punho mesmo já caído ao chão, ferido e a esperar o desfecho previsível de sua batalha.

A dignidade não é a conseqüência última e derradeira de um ator, mas, sim, a causalidade que motiva a sua execução. Augusto formulou essa frase precisamente no mesmo dia em que começou suas memórias. A decisão para fazer uma autobiografia foi grave e série: passaram-se meses até que chegasse a tomada da decisão. Desta vez, porém, Augusto hesitou: e se estivesse errado quando ao fato de ele ter razão sobre o mundo viver equivocado? Registraria o equívoco? E, caso sim, haveria tempo para reescrever sua história, isto é, a história de sua vida?

Augusto Fernandéz redigiu dez folhas corrigidas dez vezes cada; ao final delas, assegurou-se de que escrevera apenas a verdade motivada pelo hábito da reflexão. Nada demais, porém, neste começo de texto; cada um das páginas contava apenas uma ou outra relevância de sua vida, como data e local de nascimento e nome completo.

O texto parecia limpo e sincero. Ou melhor: preciso. Preciso como seu autor. Direto, objetivo e racional na mesma medida. Havia, no entanto, a hesitação sobre a questão existencial vivenciada por Augusto, e ele ainda não havia encontrado uma solução capaz de dar fim de uma vez por todas àquela ingenuidade filosófica.

Augusto decide passar ao capítulo de reflexões filosóficas; todas, sem exceção, eram despretensiosas, fundamentadas sobretudo na experiência e na reflexão daquele que as escrevia. Não havia, dessa forma, alguma novidade no campo das ciências do pensamento ou da linguagem; existiam asserções simples e desconexas porém sérias e precisas.

Após o termino de suas máximas e de seus interlúdios, Augusto retomou algumas questões jamais esquecidas. Seu trabalho era organizado, quotidiano, operário; sua dedicação consistiu em uma ferramenta tão elementar quanto sua inteligência nata.

Após 236 páginas de relatos e de narrativas, datadas de 708 dias de trabalho na contagem e recontagem de cada vírgula, mais um pequeno capítulo de máximas filosóficas que, em páginas, correspondiam a duas, mas que, em anos, se equivaliam a toda a vida de seu autor, acrescidas de uma nota introdutória cujo objetivo era esclarecer que o trabalho escrito era nada mais que um registro pessoal, Augusto Fernandéz encerrou suas memórias com a seguinte frase (que, nesse caso, era mais importante que o resto de sua obra):

Não creio que tenha acertado invariavelmente em todas as minhas conclusões, mas sei que invariavelmente cri no que conclui.

Augusto Fernandéz falece dois anos após seu manuscrito ter sido aprovado por uma editora modesta. Não viu nem veria repercussão alguma em torno de sua obra. Teria sentido, porém, uma leve indecisão sobre a última frase de seu texto se tivesse lido-a na prateleira onde repousava um único e tímido exemplar das Memórias de um homem sem valor.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Círculo vicioso

Pôr-do-sol fugitivo

A clamar pela noite demente

Que é uma estrela decadente

no meu céu de astros

decaídos

Semá-foro

Atropeladas
Árias
Ásperas
Ácidas

Várias e velhas
Velhaquices tirânicas

'Esse sujeito com esse
Jeito indecente
Indeciso'

E eu,
Conciso,
'Sei que não sou
Feito esse
Auto-indigente'

terça-feira, 7 de julho de 2009

Caráter ficcional criativo

Um amor passado
É algo que se esquece tão fácil
Quanto andar de bibicleta

A fosforência de um vagalume

Domar as dores
Ofício insalubre de um amestrador de amores

Das contrariedades metalinguísticas

A frase curta sempre é a mais longa
A mais demorada e comprida
Porque dela tudo parte
Porque nela tudo chega
Porque ela é particular e universal

Porque ela é reflexo e reflexiva
Porque é superficial
Porque é introspectiva



Aquilo que se diz com poucas palavras
Se joga no absoluto do universo
Eterno em tempo e espaço
No tamanho e no ritmo de um verso

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Há de ver cidades

Meu lar é um doce
Ninho de cobras


Cheio de traças
E ratos
Cheiro do ralo
De vômito
Do estômago defecado
Dos odores dissecados
Das dores do parto

Da puta que me pariu

Pro diabo que me carregue

E me leve
Pr’onde Judas perdeu as botas

Pr’onde Jesus perdeu o juízo

Sou um arranhar
Rastejante
Preso às entranhas rasgadas
À placenta úmida
Plácida
Monotonia colérica

Histérica história
Sem fundos de memória
Sem fundos de pensão
Sem fundos de verdade
Sem fundos de maldade
Sem fundos de fundar
E de foder
E de furar
As frouxas roupas do rei



Matar e temer
Atar-me em te ter
Meter e me ver a
Atear taras
Atrair iras
Trair atrozes
Travar atrasos
Tramar traições
Amar traidores
Tapar as estampas
As estopas


E fazer sopa
De dissabores

quarta-feira, 1 de julho de 2009

"Trocas" ou "Autoconfirmação"

- oi.

- oi!

- tudo bem?!

- ah, tudo! E tu?

- também. Vem sempre aqui?! Não, não era isso o que eu queria te dizer! Eu sempre tive recaídas com clichês, mas já estou em terapia!

- é mal de morte?

- todo o mal é mal de morte.

- por quê?

- eu não sei, mas eu queria dizer isso. Aliás, retomando, eu queria apenas conversar contigo. Desculpe, novamente, pelo clichesismo!

- conversar sobre...?

- ah, sobre o que tu gostaria?

- quem queria conversar era tu...

- apenas fiz uma pesquisa de opinião.

- e o resultado?

- ainda não foi divulgado. Posso te informar um outro dia.

- outro? Dia? Outro dia?


- se coincidentemente a gente se encontrar outro dia.

- por coincidência... entendo.

- mesmo?!

- não. Só queria dizer isso.

- essa fala era minha.

- já estava ensaiado, é?!

- de forma alguma. Claro que a gente sempre pensa no que vai falar, mas nunca se ensaia. Nem se improvisa. Engraçado: não temos a eficácia do que é ensaiado nem a criatividade do improviso. O que nos resta?

- eu gosto de restos.

- eu gosto de pratos cheios.

- somos almas gêmeas, então?!

- não, gêmeas seriam se gostássemos da mesma coisa, não é isso?!

- ah...

- tudo bem. Podemos ser almas gêmeas, não há problema por mim.

- estimulante: “não há problema”. Assim, fico louca. Aliás: melhor cantada que já levei. Por que não me fode agora mesmo?!?!?!?!

- desculpe...

- que moço bem educado. Conhece o filme A Má Educação?

- com o Gael?


- esse.

- já vi, mas não lembro muito bem... gosta de cinema?

- se não me engano, sim.

- como assim “se não me engano”?

- sou esquizofrênica.

- hmmmm...

- mentira, bobão. Era piada.

- ah, tá! Uma piada!

- não muito boa, pelo visto...

- se não me engano, sim.

- sim = não muito boa?

- sim = não muito boa.

- ah, a fala era minha.

- já tava ensaiado, é?!

- não. Sabe, nunca temos a precisão de uma peça ensaiada nem a espontaneidade de uma cena improvisada...

- o que te resta, então?

- pratos cheios, enquanto os outros comem restos...

- tu já viu o filme Antes do Amanhecer?

- o americano francês?

- não, o americano e a francesa.

- não, eu quis dizer o filme americano que parece cinema francês.

- ah, esse mesmo! Boa definição!

- sou boa em muitas coisas...

- quais outras?

- não to falando de sexo...

- nem eu!

- jura!


- claro que não! Eu sou um bom rapaz!

- e eu também.

- tu também é um bom rapaz?

- não, uma boa moça. Esperto.

- quem dera eu fosse... eu falo mal de toda essa gente pragmática, mas só posso dizer que eles são o que eu não conseguiria ser nem com todas as minhas forças...

- se fosse, eu pediria uma cerveja.

- por quê?

- me aproveitar da situação.

- esperta.

- obrigada.

- quer uma cerveja?

- não.

- tequila?

- pode ser.

- vamos lá, então.

- sabia.

- o quê?

- eu sabia... foi só dizer que eu pediria para um pragmático, que você já me ofereceu... é uma disputa?

- não, é boa educação.

- defensor da moralidade?

- só cometo pequenas infrações.

- conte.

- mostro.

- campeão, me fode de novo.

- desculpa... eu to me excedendo.

- e eu não to cedendo.

- eu to chato? Se eu tiver, me avisa.

- não, não tá... se tivesse, eu já teria ido ao banheiro...

- realmente muito esperta! Não se pode esperar nada de uma mulher, elas sempre nos enganam!

- pelo contrário: por isso mesmo se deve esperar TU-DO de uma mulher!

- eu tenho esperança.

- eu tenho expectativas.

- e o que te faria feliz?

- eu sou feliz.

- não fui isso que eu quis dizer, eu quis perguntar quais eram as expectativas...

- qualquer coisa bacana eu topo.

- mesmo?

- se me agradar, sim.

- legal, gosto de mulheres com atitude.

- realmente, faça a terapia...

- não terei outra recaída! Juro!

- falsas promessas! Os homens são os mesmos! Prometem o mundo em troca de uma trepada. E depois dormem.

- nem todos os homens são assim.

- é, alguns não dormem.

- eles sempre são canalhas?

- só quando a gente deixa...

- e quando vocês deixam?

- quando só queremos uma trepada. Aí, prometemos o mundo. E depois, lembramos de um compromisso.

- quanta maldade!

- por isso vocês nos amam.

- por isso.

- quer experimentar minhas malícias, jovem?

- adoraria...

- talvez eu pense no assunto. Qual seu nome?

- e de que isso importa?!?!?!

- eu preciso saber...

- por quê?!

- porque eu quero saber.

- mas sei lá, tu acha que a gente pertence a um nome? Qual é a necessidade disso?

- tu pode me dizer teu nome?

- não me respondeu...

- eu acho que a gente tem um nome e acho que tu pode muito bem dizer qual é o teu. É tão difícil, campeão?

- não...

- então...

- Gabriel.

- Juliana. Prazer!

- Prazer! Depois de meia hora...

- antes tarde do que nunca.

- você também faz terapia?!

- engraçadinho...

- você riu...

- por isso te chamei de engraçadinho.

- mas foi irônico!

- foi um elogio!

- obrigado! Você também!

- como funciona a terapia?

- muda. Depende do dia.
- e hoje, como é?

- hoje é procurar uma pessoa mais clichê do que eu para que eu aprenda a evitar certas coisas...

- já achou...?!!?

- não...

- que bom.

- essas coisas sempre são clichês. Isso de relacionamento... quem não é brega quando ama?

- lá no fundo, talvez sim... mas sou muito racional e equilibrada, não me leve por impulsos.

- eu gosto de coisas leves e fluidas.

- eu gosto daquilo que é pesado, denso, fundo...

- eu acho que te procurei por isso.

- por... ?

- uma vontade de sentir essas emoções fortes e avassaladoras...

- dá pra notar?

- sou ótimo observador.

- e fala demais também!

- é legal conversar...

- ainda mais com esse silêncio todo!

- não podia perder a oportunidade!

- vocês nunca perdem!

- eu nunca perco.

- tu. Nunca vai perder.

- eu sempre quero tudo e mais.

- faminto!

- por isso gosto de pratos cheios!

- por isso só te dão os restos!

- eu não mereço mais que?

- que restos?! Depende. Acho que os restos são melhores, já disse.

- sempre já se disse o que dizemos.

- então qual foi a primeira frase de todas?

- a primeira frase eu não sei, só sei a primeira mentira.

- qual foi?

- “isso não vai se repetir!”

- devem ter outras...

- “confia em mim!”. “é seguro, eu garanto!”.

- “eu te amo!”.

- mas a gente mal se conhece...

- não, essa era uma das mentiras.

- ah, tá.

- e se eu te amasse, mesmo, seria porque mal te conheço. Assumo meu pessimismo: sempre amamos uma projeção do nosso ego.

- narcisismo?

- claro. Eu assumo.

- te ama declaradamente!

- sim, e afirmo. Acho hipócrita esse papo bobo e chato de “ah, não me sinto bem comigo mesmo”. Quem se acha inferior, ainda se acha superior na inferioridade...

- também leio Nietzsche, mas não faço plágio...

- eu não faço plágio!

- não, capaz...!

- é que nem percebi que era uma citação...

- a gente vive citando coisas e não percebe isso.

- sabe?

- quê?

- aquilo que a gente diz, sempre já foi dito por alguém...

- é mesmo?!

- é...

- e então qual seria a primeira frase do mundo?

- eu não sei qual foi a primeira frase, mas sei quem foi a primeira pessoa a reclamar.

- e quem foi?

- Eva.

- do que ela reclamou?

- que o adão não dava mais bola pra ela...

- mas só tinham os dois no mundo.

- por isso mesmo.

- como assim?

- ela é uma mulher!

- e... ?!?!

- só deveria ter ela no mundo. Aliás, o mundo deveria ser ela.

- esse deve ser o pecado original, porque até hoje vocês são assim...

- é que vocês não nos amam o bastante...

- é que isso não é amor, é dependência emocional.

- por isso são traídos.

- se nós traímos, somos canhalhas. Se vocês traem, é um ato de justiça?!

- reducionismo. Não há traição. Somos traidores quando somos monogâmicos, porque traímos a nossa natureza.

- tu não tem vontade de ter alguém contigo?

- eu tenho vontade de ter todos comigo.

- e por que um não basta?

- e por que um bastaria? E mais, não é questão de bastar...

- e do que é?

- é questão de gosto. De bom gosto.

- eu concordo contigo.

- pensei que discordava...

- só queria saber teus argumentos...

- faz sentido.

- só faria se fosse ficção!

- por quê?!

- só a ficção faz sentido... a realidade é caótica.

- não tenha mais recaídas, por favor. E se cuide.

- me cuidarei. E farei terapia. Até.

- Até, Rafael.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Ossos do ofício

Não escrevo para meus leitores

Nem mesmo para mim

Escrevo.

Porque escrever se faz

E se faz necessário.

Porque cravo as unhas na carne

Porque grito e silencio e reinvento

E a palavra é meu ente sagrado

Escrevo sem arrependimento:


Escrevo porque não sou escravo

Imóvel

É tudo tão ligeiro, tão rápido, tão efêmero: está tudo na superfície lisa.


E cada coisa lenta, devagar, que matura em minhas mãos
Transforma-se em apreço e apreciação
em predicados e sujeitos
mas logo o presente já
é pretérito imperfeito


Parece tudo ser lembrança
Perco a esperança em qualquer novidade

Só que nada é igual
E nada é novo

É tudo um retorno
Com retoques
Com retalhos

Com contornos

É tudo uma mesma coisa
Que não é a mesma coisa
E nem mesmo cada coisa

A ausência de uma dialética negativa
De um nada absoluto
De um vazio sem linguagens
Sem recordações

De um prazer negativo
Inverso
De uma transliteração
Dos signos e dos significados

A ausência de estar ausente
De se ver de repente
A cantar um refrão nunca cantado
De uma canção nunca composta

Só que tudo é aposta
De uma cantor desencantado

Piedade

E eu
Guerreiro
Grito
Mito
Místico

E eu
Guerra
Luta
Sem lutos
Sem luares
Só luz
Só altares

Divindade
Dividida
entre dizeres
e distintos prazeres

eu
a morte
a vida
a força

agora enforcado
agora enfraquecido
ora desfalecido
ora escravo [!]

A primeira mentira

Os antônimos deveriam ser sinônimos de tantas coisas: imagine uma língua em que o significado seja tão próprio que não haja recurso para se fazer comparação. Imagine pensar que grande e enorme são termos ambíguos. Imagine pensar um verbo sem ação e um sujeito de quem não se diz coisa alguma.

Imagine uma linguagem em que a palavra seja metáfora, e não miragem.

Esperança

Aquela criança brilhou sob a neblina lunar. Era um anjo-caído. Arrependido.

Decepção

O mundo quer ser surpreendido sem ter que se surpreender.

Ficções

Não quero sofrimentos, sentimentos, desabafos, relatos, enfim, linguagem morta, torta, podre, a se esvair pelo canto da boca, pelo lado da porta.

Não quero confissões nem confessionários. Quero idolatrar qualquer besteira boba que suja um pouco a casa, que fujo um pouco dos retalhos rotos das mãos de minha mãe.


Dizer que se sente, se sofre, se entende, ah, tudo isso!, ah, é tudo indecisão! Estreita, lisa, fina, reta. É tudo prelúdio lúdico dos dias que virão, dos dias que verão.

Cuspido esse cupido escarrado e mal comido! Vá amar a minha porra na tua boca, Demônios! Vá amar teu cu arrebentado!

Vá amar sopa de letrinhas, feitas com varinha de condão. Vá amar o tecido de algodão que te cobre as desavergonhadas protuberâncias da puberdade. Vá amar tua idade que te esconde do relógio.

E deixe que tua leveza seja a correnteza dos maus momentos. E deixe que tua alegria vire tristeza com o passar dos tempos. Com o passar das estações e das estradas, verás os passos ultrapassados que te fazem tão quietinho, tão cretino, tão credor!

Não há espaço para o amor. Tome posse dos pedaços de vida, querida, bem-querer, tome poças de loucura e de enternecer.

Não há mais espaço para o amor: o que existe já nos basta. Não há mais tempo para o amor. E nenhuma outra farsa.

Fortaleza

Sempre fomos fortes em mentiras. Sempre gostamos de contar e ouvir mentiras. Não é má índole: a fantasia nos parece melhor do que a realidade, apenas isso.

A mulher que acredita nas mentiras deslavadas do marido e o homem que crê nas mentiras desalmadas das mulheres.


Sejamos sinceros: Saramago tinha razão ao dizer que não era pessimista – o mundo é que era péssimo.

Voltemos às mentiras. Às atuações. Falsidade qual nada! Falsidade é ser bom samaritano em meio a essa alcatéia faminta e feroz! Falsidade é esconder a ereção incontrolável na calça já desabotoada, desbotada de tantas trepadas repetidas – répteis!

Não somos maus, amigo, não somos. Somos imaginativos. Uma boa fodida e uma história inventada: é o que somos e seremos. Porque é a essência do ser – do dever-ser!

Quantas mentiras deslavadas! E as piores são as travestidas de verdades! Buscam a pureza, o ideal, a franqueza: pois são francas fraquezas! Destemíveis e provisórias!

Falam de enredos não tramados, de dramas superados, de se crer no cerne da ficção: na carne, creio, nas palavras, não.

Até quando essa causa perdida de se perder sem causa? Até quando se entranhar dessa leveza tão auto-sustentável? É amável teu amor, mas tua moral é mal irremediável!

Se te acusarem de hipocrisia, amigo, lembra-te de que a acusação não passa de auto-defesa em todas as vezes – atirar pratos sujos sobre a mesa e pedir manjar dos deuses!

As primeiras considerações sobre o quotidiano

Albert Camus afirmou que a única pergunta filosófica de real relevância é se a vida vale ou não vale a pena ser vivida. Embora possa parecer reducionismo, ainda mais em se tratando de discurso existencialista, essa questão parece dizer, na verdade, “há algo além da própria existência?”.

Dessa maneira, percebe-se facilmente o inverso da primeira impressão: ao invés de um reducionismo, essa reflexão filosófica consiste justamente em uma maximização da importância da existência. Isto é: há a existência.

Em uma perspectiva dialógica, pode-se, também, buscar uma aproximação entre esse existencialismo com a fragmentação da razão na obra de Friedrich Nietzsche.

Para o filósofo alemão, a pergunta seria “há algo além do sujeito e de sua percepção?”. Schopenhauer, ao tentar responder essa mesma questão, afirmou que, exceto tempo e espaço, todo o conhecimento é fruto de uma representação do mundo. Assim, a cognoscibilidade seria um elemento inexoravelmente subjetivo.

Em síntese, leitor, temos os seguintes problemas: “há algo além da existência?”, “há realidade objetiva cognoscível?”, “há universalização dos conceitos” e “há diferença?”.

Em síntese, leitor, temos sequencialmente as seguintes hipóteses: “há algo relativo à existência”, “há objeto cognoscível”, “há universo e há conceito” e “há repetição e semelhança”.


Proponho discutirmos tais questões a fim de legitimar/problematizar concepções e hipóteses.

Um abraço!