sexta-feira, 4 de março de 2022

A importância das cotas sociais e raciais

Tive a oportunidade de testemunhar o surgimento do debate e a implantação da política de cotas sociais e raciais. Durante muito tempo, contudo, não entendia bem como uma política aparentemente de separação social poderia trazer igualdade social. Isso porque, pra mim, éramos iguais perante a lei e todos deveriam ter as mesmas oportunidades e chances. Eu simplesmente não percebia o abismo que é a desigualdade social no Brasil. É evidente que sabia que existia desigualdade, mas não conseguia compreender estruturalmente e historicamente todas as implicaturas dessa desigualdade. Até que, aos poucos, e mais lendo e ouvindo do que falando e escrevendo, comecei a entender outras perspectivas. Por exemplo: comecei sistematicamente a "contabilizar" a estratificação social e racial dos lugares que frequentava. E ver que não há nenhum afrodescendente ou pessoa trans no restaurante, na faculdade, enfim, faz você perceber o que é a invisibilidade social.


Errei feio, errei rude. Não somos iguais e é impossível apagar a mácula histórica que o racismo, o patriarcado e a violência de gênero causaram em nossa sociedade. Por isso, políticas de inclusão e afirmação são uma pauta sempre necessária. E sempre é tempo de aprendermos e rever nossos conceitos. Hoje percebo que as cotas, na verdade, nem dão conta de efetivar a mudança social, até mesmo porque são necessárias gerações inteiras de mudança. Não é uma política recente que mudaria em poucos anos um passado longo, complexo e multifacetado. Mas que bom que há um começo de mudança que gera, hoje, inúmeros avanços em termos de afirmação social. Que possamos testemunhar e ser a transformação social que o mundo tanto necessita.

domingo, 27 de fevereiro de 2022

Cotas, feminismo, questões trans: onde me sinto nessa história?

 Durante muito tempo tive conflitos internos entre a) a ideia de que somos todos iguais perante a lei e b) a ideia de que existiam leis específicas para determinados grupos sociais. Nunca me senti inclinado a rejeitar os direitos sociais, mas sempre achei esquisito isso de pregar que somos iguais em algum lugar. Seja na lei ou fora dela.


Por exemplo: se eu crio uma lei em virtude de pessoas idosas, eu tenho um critério de idade. Da mesma forma, a promoção de políticas para a, b ou c também implica a adoção de critérios que se atualizam de tempos em tempos conforme a evolução da sociedade. Em tempo: não estou criticando leis para idosos, também acho que são justas e importantes. Mas é um caso simples de verificar que não somos iguais: nem na vida, nem na história, nem na lei. Leis para idosos são específicas para pessoas desse grupo. É por isso que existem assentos prioritários, há diferença, não igualdade.


Reconhecer que somos diferentes significa entender que não há uma espécie de igualdade/neutralidade jurídica; há estatísticas, por exemplo, que mostram a tendência à condenação que grupos sociais infelizmente carregam consigo (por cor, condição social, entre outros fatores). Por isso a importância de cotas sociais e raciais: muita gente acha que é uma espécie de protecionismo, de privilégio, mas, na verdade, é um reconhecimento das diferenças históricas e sociais que nos constituem. 

 Por mais que algumas pessoas achem que cotas são privilégios ou frutos do racismo reverso, na verdade a política de cotas busca apenas promover a inclusão de sujeitos e a garantia de seus direitos. 

Por isso tão difícil de compreender a complexidade das questões que envolver o outro: seja pelo gênero (pautas feministas e trans), seja pela questão social, racial, religiosa, política... Quem somos junto ao outro?

É contraditório defender igualdade num mundo desigual. Meu lugar nessa história é de observação e aprendizagem, só pra responder a pergunta do título!


segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Sonho

Há, no mundo, bilhares e bilhões de pessoas;
há bares e há boatos;
há boemia e há a lacônica abstenção...!

No mundo, tudo o que se pode conceber, há - pois já foi concebido, ainda que ideia.
No mundo, as mulheres são todas e os homens também - no mundo, a vida é para além.

E eu, pigmaleão, desinvento prozas e poéticas de perdição!
E eu desenho as musas e as desinvento na roda do tempo...
Sonho desacordado inadormecido,
Relembro a memória do desesquecido,
Desintegro-me solidamente de uma vez e aos poucos.

A geometria não mede,
a história não conta,
a filosofia não pensa,
a estatística não estatisfica!

Paradoxo negativo. Irrompido. Interrompido. Inegativo. Inenarrável.

Abro os olhos e só vejo você, que existiu antes mesmo de eu pensar que poderia existir alguém. Assim. Como você é.

terça-feira, 25 de junho de 2013

Das cidades pequenas

A cidade estava, hoje, bela como nunca esteve!
Desgastada e exausta, isso bem é verdade;
Mas sei que nunca tão delicada e bela esteve
Como hoje estava a inquieta cidade!

Dormiu amanhecida de suas arquitexturas;
Um pouco confusa e perdida, me parecia...
Mas mereceu todas as notas e toda a poesia
A cidade que ressurgia de sua própria tessitura!

Perturbaram-me ainda mais as ruas da cidade
E os (dis)sabores em que a cidade crê
Onde está, afinal, a sua insanidade?

Nas linhas des.cobertas de Le Corbusier
o poeta distraído reinventa a verdade:
a cidade é toda poesia que se pode ter.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Para quem escreve torto em linhas retas

A arquitetura é todo o espaço
(des)construído Entre as regras
lineares da razão E as intempestivas
sinuosidades da loucura

A arquitetura é qualquer invenção
Sonhada para além do possível
Vivida sem temor nem medida Nas
intermitências do fato intangível

Arquitetar é deixar de ser
Para se deixar ser
Para viver sem moldura

Arquitextuar é voltar e Voltar
a se perder entre a realidade
e a obra de arte: tua pintura


domingo, 13 de janeiro de 2013

Ana Maria



Ana Maria Ana
A Mariana
Nascida
Vicia

Ela é a luz ofuscante
nessa escuridão melancólica
Ela é a lua irrisória
em meio a tal deserto escaldante

Suas vestes vertiginosas
São vestígios inimagináveis
E eu, imaginativo, quero as inescrupulosas
faces e facetas adoráveis
dAna Maria que é rosa

nesse chão de sal
que só queima a flor qualquer

nessa imensidão de tédio
que revigora a alma comum

A Ana Maria é um mundo que nem existe
ela é um mundo para além
do bem e do mal
do alegre e do triste

Para além da minha poesia, tola,
para além da minha inspiração de poeta
ou  da minha aspiração de esteta

A Ana arquiteta
desconstrói a lógica quotidiana
e parada das cinzas paredes

A Maria artista
pinta as paredes do quarto
se joga num único salto
como peixe nascido fora do aquário

Porque a Ana Maria
Ana
não me engana
com seus instintos feéricos
nem nos seus labirintos ébrios

A Mariana vivida
é o doce deletério
da minha alma vil
e violável

A Mariana
É brisa marinha
ébria
cheia de artimanha
despida
das despedidas

Ah, essa mariana pessoa
impessoaliza meus sentimentos
possessos
e improváveis

abandona!, abandona!
A Ana Maria não amada?
Ou a vida sem sua musa?

O poeta, nesse paradoxo,
que é o ócio de viver
inventa poemas tortos
pra neles
Ana Maria
- que se ama -
renascer.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012


Benvelaire



Ressoam escandalosos inéditos manuscritos
Liricamente perdidos em meus argumentos
- Laboriosos textos sobre o não dito -
Nos lábios aflitos do pensamento


Eternizados estão os teus versos malditos! 
Com a luz incandescente d'alguns ensinamentos...
Que, desatinados ecoam nos tímpanos do esquecimento
E luarizam-se sob a tênue luz do infinito!


Perdoem-me os olhos cegos sob tua luz,
Oh áurea corpórea desses escritos!
Pois redimidos estamos se a vida nos conduz...

Ainda mais pois seduzidos por um etéreo mito
 Ou pela efígie eterna de um cão andaluz:
a linguagem é um inevitável precipício