quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Criar uma canção
pode ser

fatal pode
ser feroz pode
ser infantil pode
ser doloroso pode
ser horrível pode
ser tristeza pode
ser real realeza
não pode ser um
desabafo não pode
ser um conselho não
pode ser um choro não
pode ser contemplação

segunda-feira, 19 de julho de 2010

amantes

só de saber que todo o passado era
escola ensaio rascunho
para os dias que agora
são vida luz desatino punhos

que escrevem a própria história
que tecem-se a si mesmos
belos traços torneados
pelos encantos dos teus gracejos

e sem rodeios beijo-te a boca em flor
e teus olhos esmeraldas pétalas
chego-te aos meios com fúria e amor
e perco-me nas tuas curvas e retas

nos teus desenhos e contornos
cantares após o coito
ao sono somente o conforto
do corpo caído, outrora afoito

e agora apenas afeto
pronto para fazer-te bem maior: o feto
pronto para lamber-te clitóris e pescoço
pronto para qualquer alvorada qualquer
alvoroço


e ao altar irei
e às alturas fui vou sempre
majestoso feito rei
ou enlouquecido
por teus olhos
entorpecentes

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Os sonhadores

Na primeira vez que eu estive em Paris, eu pensei: somente os franceses, somente os franceses colocariam um cinema dentro de um palácio. Esta é a frase inicial do filme “Os Sonhadores”, e o personagem Matthew, interpretado por Michael Pitt, ao dizê-la revela-nos uma obra que ilustra e homenageia a produção cinematográfica, sobretudo filmes clássicos como Bande à Part e Luzes da Cidade e grandes atores, entre eles Chaplin, Keaton e Dietrich.

O diretor Bernardo Bertolucci apresenta ao expectador a história de Matthew, jovem americano que vai à França para estudar a língua local, e de dois irmãos peculiares: Isabelle e Theo, vividos respectivamente pela estreante Eva Green e pelo talentoso galã francês Louis Garrel. O trio possui uma ligação bastante forte, qual seja, a paixão pelo cinema. Os três, diga-se de passagem, conheceram-se na Cinèmathèque Française, local de encontro entre os cinéfilos e também das primeiras manifestações revolucionárias da agitadíssima França dos anos 60.

Com o desenvolver da trama, o expectador assiste a uma intensa e crescente intimidade entre os personagens protagonistas, iniciada no convite de Isabelle e Theo para que Matthew jantasse em sua casa; nesta oportunidade, o jovem americano é convidado também para permanecer uma temporada na casa dos dois irmãos, visto que seus pais viajariam ao litoral.

Além de introduzido em uma cultura diferente e de não falar fluentemente a língua francesa, Matthew tem seus costumes e regras paulatinamente subvertido por seus novos amigos franceses; sem perceber, ele entra no jogo de provações e de desafios no qual ambos os irmãos vivem.

O filme de Bertolucci ilustra também o período revolucionário que desencadeia os fatos históricos de maio de 1968, aspecto trabalhado com coerência pelo diretor, que em nenhum momento trata com descaso a ficção ou a usa como pretexto para remontar a França da década de 60.

Bertolucci, pelo contrário, presenteia o expectador com uma intensa relação entre a trajetória particular de cada pessoa e o desenrolar histórico de toda uma sociedade; além disso, o diretor retrata a contra-cultura e os anos mais socialistas e rebeldes de nossa recente história, e tudo isso embalado ao som de ilustres nomes do Rock ‘n’ Roll, como Janis Joplin, Jimi Hendrix e Eric Clapton.

A resolução do filme acontece com uma belíssima câmera parada frente a um pelotão policial prestes a atacar a massa revolucionária enfurecida nas ruas; após a passagem da força policial, o expectador vê apenas uma rua vazia, que cria a sensação de que a história é fragmentada, subjetiva e parcial, mesmo que esteja sob um olhar objetivo e estático. Ao mesmo tempo, o trio, que já mostrava indícios de afastamento, separa-se totalmente em meio ao protesto: Matthew opta por evitar o confronto direto, ao passo que Theo é o primeiro homem da frente de ataque, munida de molotóvs e de sonhos. Isabelle, inicialmente indecisa, prende-se novamente a seus laços umbilicais ao preferir ser cúmplice de seu irmão.

Ao encerramento do filme, o expectador vê-se diante de um conflito entre a realidade e o sonho, a possibilidade e o fato. Esse dilema traduz-se na fala do personagem pai dos gêmeos Theo e Isabelle: “antes de transformar o mundo, você precisa saber que faz parte dele também”. Assim, Bertolucci encerra uma história com um convite para (re)escrevermos outra.

Antes do Amanhecer

Título Original: Before Sunrise

Tempo de duração: 105 minutos

Direção: Richard Linklater

Roteiro: Richard Linklater e Kim Krizan

Fotografia: Lee Daniel

Direção de arte: Florian Reichmann

Figurino: Florentina Welley
Edição: Sandra Adair

Elenco: Ethan Hawke , Julie Delpy , Andrea Eckert , Hanno Pöschl , Karl Bruckshwaiger

O diretor Richard Linklater, nascido em Houston, EUA, desconstrói nesta obra toda a caricatura dos romances norte-americanos: seus personagens são redondos, densos, intimistas e verossímeis; sua narrativa é circular, fluida, coerente e, sobretudo, poética. O filme aborda a existência e as relações humanas e, ao fazê-lo, expõe uma teia de fatores que desencadeiam o fluxo da vida: o acaso, a escolha, a impulsividade, a passionalidade e, creio, o mais importante: o compêndio de auto-contradições e de dúvidas que nós, os humanos, experenciamos.

Jesse (Ethan Hawke) e Celine (Julie Delpy) são os protagonistas desta efêmera e, ao mesmo tempo, marcante experiência (não apenas sexual, turística ou romântica, como também existencial). Ambos casualmente encontram-se em um trem com grandes janelas, de onde temos a ambigüidade fértil de sentirmo-nos observadores e observados. A partir disso, o filme tece uma história que poderia ser considerada uma (quase) fábula ou uma história quotidiana (e sem ser incoerente!), ao expor o lirismo das situações quotidianas e a beleza trágica – por vezes cômica – das fragilidades (não com alguma conotação ruim) e dos desejos humanos.

Na realidade, o roteiro aborda uma história que poderia ter acontecido - ou que poderá acontecer – com qualquer um de nós: sentir empatia por alguém desconhecido, aproximar-se dessa pessoa, sentir-se bem a seu lado e buscar nela os limites de nossa própria existência. Há de se admitir, contudo, que é necessário um trabalho criterioso para não resvalar para uma caricatura pueril nem tornar os personagens demasiado surreais para o espectador. O que, de fato, é feito com maestria: Jesse e Celine são personagens desenvolvidos gradualmente ao longo da narrativa e, também, dos cenários (Jessé, o viajante à procura de algo que não se sabe, por exemplo, estabelece uma forte relação entre seus sentimentos e as estações de trem (partida x chegada, movimento x permanência, observar x mostrar-se).

Outra característica vital para a o efeito universal que esta história tem é o fato de que ela não estabelece limites rígidos para a imaginação do espectador: Jesse é um rapaz norte-americano que perdeu a namorada e vaga por aí, ao passo que Julie é uma francesa em seu quotidiano que resolve correr o risco e se certificar de que aquele não era o homem de sua vida, este conforme o argumento (quase) irrefutável de Jessé. O espectador, dessa forma, pode criar uma empatia por qualquer dos personagens, pois há uma série de características com as quais pode se identificar: ser aventureiro, ter perdido alguém de que gostava, sentir-se confuso e procurar algo novo, tentar tornar a vida mais atraente, explorar lugares e possibilidades com uma boa companhia ao lado, et cetera.

Tal processo híbrido de lirismo poético e coisas do dia-a-dia, de fábula e de vida quotidiana, de uma história extremamente singular e tão irredutivelmente universal fazem de Antes do Amanhecer um filme que traz ao espectador a sensação de que conhece uma história igual àquela e de que jamais existiria uma história igual àquela. Igualdade esta que remonta o eterno retorno nietzscheano, e dessa intertextualidade podemos pensar que “tudo o que se faz por amor faz-se sempre para além do bem e do mal”.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Reatar retalhos
retornar eternamente
displicente caminhante
perdido em teus (a)talhos

quarta-feira, 19 de maio de 2010

presságio

Tenho andado rútilo-cintilante neste mundo esvaecido
Tenho sido desvanecido-andante nestas horas tolas-rutilantes
Todas faces metafóricas por ilusões retóricas de mim mesmo
Tantas facas ilusórias que atravessam meu rosto, eu vejo

No espelho desmontado
já destoado de sua imagem distorcida
de seus travos reprimidos
traços escondidos de um ator sem fala
de um autor sem voz
de um crime atroz jamais cometido!

E cantassem o mais alto dos cantos
e entoassem a mais bela canção
estaríamos surdos perante tais encantos
e estaremos vivos-mortos nos dias que virão!

quarta-feira, 3 de março de 2010

prece

Escrevo. Porque me excedo.
E estou sozinho e feliz. Estranhamente calmo e úmido.

Escrevo porque já perdi as contas de todos os que fui e partiram de mim,
sem deixar uma parte sequer inteira.

Cansado de carregar o peso de um ego envaidecido e de personagens esboçados,
hoje mal tenho uma mochila com poucas roupas,
e as lembranças, ah, as lembranças estão todas no passado!

Sem peso, dor, remorso ou vingança.

Apenas sou leve e constante em minha inconstância.
Apenas sou peixe desmemoriado.
O espírito rebocado de lágrimas e beijos.

Sorrisos imprecisos no canto da boca
A roupa simples que eu nem lavei
Cara de sono e palavras arrastadas
que não escondem mais as verdades
as calamidades
e as poucas vergonhas que sei


Eu estou sozinho e triste
e feliz por estar só e sentir tristeza
e por isso escrevo
em tua homenagem
em teu louvor
santinha do pau oco
amigamante que tenho
e me consome os primeiros minutos de sono

e por vezes me desperta
eu disperso na quimera formalidade


Eu sou tolo em minha loucura
E são em minha insanidade
Não tenho mentiras bonitas
Hoje vivo só - ouro in verdades